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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

S/TÍTULO

Abaixo do baixo
Desceste
Tanto quanto o
Instinto te impôs.

Não esteve em ti
Não dependeu de
Ti a salvação
Que procuraste.

Veio de ti porém
E outro ficaste sem
Saberes como foi que
Uma família te compôs.

(VIII/2010)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

ocasional

O espanto pela dádiva rotineira de cada dia
O inesperado que me faz viver habitualmente
A surpresa do habitual quotidiano.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

ASFALTO

Seca-te a garganta
A poeira que não sabes de onde vem
É o pó do deserto a entranhar-se
Nos teus canais   tu que passas
A vida a inspirar fumo dos escapes
Pois o asfalto foi a tua única aspiração.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O QUE INTERESSA

Esmifra-te pá!

Instalado copo
Na mão cigarrilha
Entredentes tenho
O cinismo para tirar
O insuficiente do que
Escreves para existir.

Mantém-te pobre pá
Incorrupto e só
Só durante o tempo
Que o talento to permitir.

Não tenho a coragem
Do teu sofrimento se
Fores dos meus deixarás
Gargalo e mortalha e
Passarás empoltronado
Ao amor que  segura.

Passarás ao que interessa.

I/II - 2013

domingo, 23 de dezembro de 2012

DOS RESTOS DE HUMANIDADE

Como sobreviver
À merda que nos sai
Ao peido nauseante?

Beethoven traquejava
Eu sei isso alivia-me
Misericórdia porém

Como esquecê-lo quando
O mesmo chanel passa
Uma e outra vez e entumece?

Como não rir do patriarca
Em massagem de natal
Do pr nos votos de ano bom?

É fodido.
23-XII-2012

segunda-feira, 30 de julho de 2012

AUTOBIOGRAFIA autorizada

I

1964-1969 estoril
E cascais o mar
Lenços nas cabeças
Das senhoras carros
Compactos e redondos
Com frisos de metal
Um sol luminoso
A minha pequenez os cães 
Inocência.


II

1970-1979 cascais
E estoril as saias
Das mulheres
Jovens carros esguios
E descapotáveis
Um sol luminoso
Guitarra e voz
Inocência
Primeira visão da morte.


III

1980-1989 estoril
E cascais os corpos
Das raparigas carros
Velhos ferrugem
Um sol luminoso
Os cães a viagem 
Inocência.


IV

1990-1999 estoril
E cascais a minha mulher
Todas as mulheres a vida
O mar os meus livros os meus
Carros a adultês
Um sol luminoso
O desengano.


V

2000-2012 cascais
A morte a vida os carros
Os carros os carros
Um sol luminoso
Os cães
A paz.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

PRECE

Chegar ao próximo natal é
                                   Desde criança
                                                   O pedido que sempre faço ao deus em que não creio.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

MUNDO DE AVENTURAS


Uma pequena aldeia na planície arménia
Nevoeiro matinal no porto de dieppe
O silvar agudo no cimo dos cárpatos
Um castelo solitário num lago escocês

Um junco chinês no mar do japão
Um trilho de camelos na rota da seda
Um catre vazio no mosteiro da arrábida
Uma via romana na serra do gerês

Uma mesa de cozinha e odores de outono
Um eucaliptal onde brinco com o avô
O último número da revista tão esperada
Despojos da infância que se me acabou.

                                                                                           
21 de Março de 2001

sexta-feira, 13 de abril de 2012

RECORRÊNCIA

O pássaro na mão
E eu a pô-lo a voar.

sexta-feira, 16 de março de 2012

ÚLTIMA HORA

Escrevo
Pois não consigo estancar
O que em mim verte 
Do belo que me fere
Do horrível que me alimenta.

4-I- / 16-III - 2012

quarta-feira, 14 de março de 2012

TRAÇOS DO CARÁCTER

Sarcástico.
Irónico...
Sardónico?
Mordástico!

25-X-2007

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

HOMEM AO MAR

Ouço os sinos das igrejas
Às horas certas
No vale onde me encontro.

O vento é o meu nevoeiro
O badalar é o mugir do meu farol.

Homem das cidades marítimas
Sinto o cerco dos montes   dos penedos   da floresta.
Sei que há lobos
Javalis escondidos
Cavalos selvagens pastando solitários.

O pio nocturno da coruja
Não me deixa esquecer onde estou.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ESPECTROS

Dos meus mortos não fica a memória  senão em mim e que em mim morrerá
Justiça do tempo para os que viram a vida passar?

Alguns não deixaram rasto   e toda a sua vida fez sentido.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

SUBLIME PORTA

Amolece-te a vontade
O vapor do banho turco.
A memória de há pouco   todo o querer
Já passou.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

GENEALOGIA (5)

Há partículas do meu sangue vindas do outro lado do estreito de
                                                                                        [tariq

Guerreiros de alfange à cinta tomaram muralhas
Desbarataram o rei rodrigo
Guerrearam-se entre si.

Sangue quente em terra quente
Useiro e vezeiro no trabalho violento do gado
Manadas conduzidas por léguas e léguas além tejo
Oeste e volta
Noites dormidas onde calhava
Ao relento e ao luar
Noites transfiguradas pela geometria fractal dos corpos celestes.

Este meu sangue da barbaria
Alento de macho cobridor sem maldade ou pudor
De fácil turvação à vertigem de uns olhos rasgados em tez morena
Sangue berbere espalhado sem ida nem volta pelas margens
                                                               [de aquém Tejo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

GENEALOGIA (4)

O medo e a transgressão
O disfarce e a submissão
Correm no meu sangue
Confinado à beira baixa.

No retrato duma trisavó
Na terra
No nome da família
Inscreve-se ao baixo o rasto milenar da judeia na cara do meu
                                                                                   [sangue.

Passei a exigir-me judeu
Vestígio da nobreza do meu sangue
Berbere celta negróide.

E há segredos de roda
Tradição familiar fantasiosa de aristocracia presuntiva
Sem um pingo da nobreza do meu sangue.

A verdade é que no meu sangue há criadas de servir
Criadas em locais remotos duma baixa beira
Terra de contrabando e crime
Terra de ninguém.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

OBSIDIA

Houve tempo em que julguei não ter tempo para ler   a minha máxima ambição foi então a de dispor de tempo para ler   uma página por dia   uma página de boa prosa   uma pauta de sinfonia aquiliniana   um fresco dum vasto painel de paço d'arcos (joaquim)   ler ler   era só o que eu queria   na paragem da carris   podia ser   ganhei o hábito de fugir ao almoço para ler ler ler   voltado para a parede sem aturar chatos e ler a sós com o meu livro   depois deixei de saber falar   cada encontro um contratempo   uma irritação   um aborrecimento   ler ler leer.

Mas pouco para dizer   e nada para escrever.

30-X-2006

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

GENEALOGIA (3)

No meu sangue há homens do mar
Celtas de olho azul vindos em balsas
Da verde erin.

Tiveram poiso por séculos na costa norte 
Mas logo se lançaram a esse mar
Acima do árctico
E desceram a sul
À aventura e à rapina.

Celtas de olho azul
Branco o loiro da barba
Neve da terra nova.

Celtas de olho azul
Roupa colada ao visco do corpo
Calor húmido dos trópicos.

Homens e mulheres da pesca e do peixe
Da costa nova à capital do império
Onde assentaram arraiais os filhos dos arrais.

Em lisboa se fixam
Trazem despojos vivos
Dos restos d'além-mar
E com eles se misturam.

No meu sangue
Tudo isto e ainda mais.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

GENEALOGIA (2)

O meu sangue correu pelo atlântico
Entre barcos negreiros de costa a costa
Companhias de navegação do norte ao sul
E do sul para o norte.

Há no meu sangue alguém subtraído
Aos pais aos filhos ao amor da terra
Capturado por tribo inimiga
Prisioneiro de guerra
Ou de cilada armada.

Um negro
Robusto que bastasse para sobreviver à travessia do oceano
Grilhetas nos pulsos nos tornozelos no pescoço e na alma
Ou uma negra
Da costa dos escravos ao mercado da baía
Ou qualquer parte do brasil onde se vendesse gente como
                                                                           [mercadoria.

O meu sangue negro perde-se numa noite secular
Até um português do meu sangue branco (branco?)
Trazer uma bisavó mulata com sua mãe liberta
A bisavó que hasteava a ordem&progresso à varanda
Quando se pilhava e matava na lisboa republicana.

África américa europa américa europa
O meu sangue fez o triângulo do mar.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

GENEALOGIA (1)

No meu sangue há
Comerciantes austeros de suíças brancas e longas
Relógios de cordão de ouro e ar respeitável

(Talvez o fossem)
Um ar que se permitia pendurar-se
Nas paredes de pé direito muito alto
Em casas do século dezoito.

Trataram na ribeira das naus do que chegava do brasil da índia e
                                                                               [das partes de áfrica
Alguns deixaram as mulheres e descobriram no regresso filhos
                                                                    [com treze meses de gestação
Alguns deixaram as mulheres e descobriram-se pais de outros
                                                                        [filhos em paragens distantes
Perdoai-lhes senhor
Que todos sabiam o que faziam.

Foram vizinhos do bernardo soares
Sem que o notassem
Estiveram cercados à fome pelos castelhanos em mil trezentos e
                                                                                    [oitenta e quatro
Circularam em contágio de curiosidade entre o carmo e o arsenal
                                                                                [no vinte e cinco de abril
Sem espalhafato que a sua política era o trabalho
Vaguearam doidos varridos quando o grande terramoto lhes
                                                                                    [ruiu bens e família
Sobreviveram como puderam aos exércitos de bonaparte e à
                                                                                    [tropa de beresford.

Em lisboa há séculos
Pergunto(-me) o que são e de onde vieram.

Prosperaram e caíram
O triunfo não era da sua natureza
Acertavam quando calhava para tudo se desconjuntar na geração
                                                                                      [seguinte
Cabeças no ar e mau vinho
Importação de fruta exótica e lugares na praça da figueira
Prédios no bairro alto e campo de ourique habitação ao rossio
Cruzaram-se com o eça quando ia visitar os pais chegado de paris
Mas também não deram por isso.
Já ninguém mora nas casas pombalinas e o soalho deixou de
                                                                                      [ranger.

Desde então a família circula dispersa-se e desfaz-se.