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sexta-feira, 20 de junho de 2014

FALO-TE DO FALO

Falas-me do falo
E eu fico sem fala
Da falta que te faz 
O falo
A porra do falo
Que num instante
Nos calaria.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

DO MERECIMENTO

Rápida   esguia
Apanhado o cabelo   oh
Tão bem apanhado
Passas-me por baixo
Da janela e nem suspeitas
Que o vislumbre dos teus quadris
Adivinhados sob o longo casaco
Doutra época os sapatos dum
Castanho eduardino ou vitoriano
E o teu cabelo apanhado   oh
Tão bem apanhado   nem suspeitas
Me mereceram este poema.

19/21-II-2013

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O QUE PASSA

Um sol morno que perfura as nuvens e te aquece
Uns seios que apetece trincar
O cheiro molhado da terra
O cão que te abana a cauda
O encontro no chegar a casa
A ilusão de óptica nas jantes dum carro inglês
Aquela frase que te saltou do livro
O verso que veio ter contigo
Um looping de avioneta no céu de cascais
Um vestido curto de fêmea
Uma bica com café do nabeiro
Um sax que não se sabe de onde vem.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

GIRL ON GIRL

V     A
 U  V
   L
 U   V
V      A

sexta-feira, 20 de julho de 2012

TÁCITO

Ela empina-se em silêncio
Cruzamos o olhar

O rio segue o seu curso.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

RETRATO

A luz própria que se desconhece
O modo aristocrata malgrée elle
A voz suave que não se impõe
O drapejar violeta que oculta as formas
Os olhos meigos atrevendo-se a não mostrar do que são capazes

O seu je ne sais quoi.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

FIM DE TARDE

Pássaros em bando a quem tivessem aberto as gaiolas
Frescas como a aragem que corre após um dia de trabalho
As lojistas passam em silêncio entrando
No fim de tarde de junho com os sacos
Cheios da tralha que só as mulheres usam
Algumas de óculos escuros outras
Cara a descoberto e cabelo apanhado
Vestidos de alças
Ombros nus que apetece beijar.

E eu
Vendo o desfile destas jovens mulheres
Chego a pensar que a vida é bela
Esquecendo por momentos os salários curtos
O horizonte estreito das suas existências
O futuro sem brilho que as espera.

Nada disso tem importância neste fim de tarde quente de junho
Soprando uma aragem que atinge em cheio rostos inexpressivamente belos
Tocados pela luz quase rasante de um sol-pôr
Por entre as frestas de casas muito velhas
Marcadas pelo verdete do inverno

Sintra, 27-VI-2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

CRUZAMENTO





Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite
Álvaro de Campos


Não era para ser como foi   vestido
Acima   de bruços sobre um 
Balcão qualquer.

De mulher nem o nome te sei
Ou o rosto fixei fora uns olhos
Escuros e quase cerrados como
A boca   dizendo em segredo:
Havia de ser ali e já.

Não sei quem és
Não sei o que és
Sei que ficaste assim:
Um sorriso vago  
E despojos de mim.

16-VI-2012

segunda-feira, 18 de junho de 2012

COMENTÁRIO A UM POEMA


Nada é mais belo que o seu desabrochar
O seio que a mulher dá
Com ternura   aos filhos
Com paixão   ao amado
Com tesão    aos amantes.

Sugam os filhos
Beija agarra  lambe o amado
Apertam trincam  batem os amantes
Deixando o peito vermelho de dor e prazer.

E a mulher
Com olhar enlevado  para as crias
Com um sorriso cúmplice para o macho
Cega de volúpia com os amantes
Dá-lhes o seio depois
Com o mesmo sorriso
Meigo   cúmplice   enlevado.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

OUVINDO WAYNE SHORTER, DE PÉ

O Parque rebenta pelas costuras.

Alegría.

De joelhos e de cócoras
As fotógrafas procuram ângulo.

Alegría.

Wayne despeja notas
Ar de executivo em férias.

Alegría.

Engasgado o soprano
A secção rítmica arranca-
Nos inesperadas flexões
De joelhos  de joelhos
As fotógrafas continuam
À procura do melhor ângulo.

Alegría.

O tempo estava incerto
Chuva no final do concerto.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

sexta-feira, 20 de abril de 2012

FRANJA

A franja esconde
Te os olhos grandes
O vestido justo molda
Te as coxas exuberantes
Tão descaradas como
Os teus grandes olhos
Escondidos pela franja.

VI-2003

quarta-feira, 11 de abril de 2012

PERSEGUIÇÃO

Se te distraíste quando falavas e as palavras resvalaram
Se deixaste ferver em demasia a água para o chá
Se um frémito te invade o centro do corpo e sobe até o esmagares com os lábios
Fui eu que passei por baixo da tua janela para estar mais próximo
Fui eu que rondei a tua casa na esperança de te ver à porta.

Eu 
Que me recuso a largar-te e não te deixo em paz.

sexta-feira, 30 de março de 2012

MESSAGE IN A BOTTLE

Deixa-lhe bilhetes para a eternidade
Certo de que só no corpo se alcança a ventura.

sexta-feira, 23 de março de 2012

O IMPOSTOR CAI EM SI, E SUPLICA

Agora que me trato por tu
E se desfez a pose fingida
Do sedutor   considera a
Pele na pele a boca na
Boca   as mãos por todo
O lado   permite conceder-
Nos uma fracção de ternura
Uma fracção de (e com isto
Liquido já o poema) tremura.

quarta-feira, 21 de março de 2012

FOLHA

Não a queria
Vergada ou
Quebrada antes
Folha soltando
Se e caindo
Inexorável
               m
               e
               n
               t
               e
Sobre
Si.

segunda-feira, 19 de março de 2012

RÉPLICA

Eras nesse casamento a imodéstia do vestir
Simples de todos os dias.

Divergias das fêmeas ciosas na igreja
Opulentando de transparência os vestidos
Decotes pelo peito abaixo saltos agulha
Em velado convite à cobrição.

E eras em tudo mais que elas   
Em mérito em cérebro em desejo
Ardente que uma natural reserva
Não conseguia comigo conter-se.

Quase nada era preciso
Para cairmos um no outro.

Mas não sabes ou saberás
Pois isto nunca verás    
Que não eras tu quem eu queria
Pequena árabe
(Ou israelita)
Há séculos convertida  
Retrato da que há anos me agrilhoa.

Tivéssemo-nos tido doce judia
(Ou agarena)   
E seria em outra mulher que eu julgaria estar
O original de ti réplica
Involuntária e imerecida
Na minha cabeça desaustinada.

A que tarde ou cedo lerá estes versos   
Sabendo que é dela que falo e me consome
E se consome pelo medo de se deixar amar.

13-III-2012

domingo, 26 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ENTRE PARÊNTESES

De gatas   e sorris  
Candura posta entre parênteses  
Para onde foste nessa hora   quando te chamei
Puta 
E investi desvairado como um cão?  

A candura entre parênteses  
                                      De gatas  
                                                 E sorriste.  

Onde ficaste nessa hora?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

GANCHINHO

Põe no cabelo um ganchinho
Destapa a orelha   deixa
Ver a curva do rosto até
Ao queixo   assim   de perfil
Fecha os olhos   inclina-te
Para trás   ligeiramente   como se
Quisesses arrancar-me um beijo   e não
Eu   em desvario   to cobiçasse.

4-I-2011