O construtor sabe que veio do nada e vai para o nada provém do magma imemorial das origens e sente que não existe outro futuro para além da poeira cósmica resultante da decrepitude inevitável do planeta não lhe basta o instinto vital da procriação frui cada corpo como matéria primeva e análoga a si e luta incessantemente luta o construtor por uma estética do bem que acolha a beleza e a fealdade imanentes o sémen e os excrementos que fertilizarão a massa informe resultante da nova agregação do pó até à eclosão dum outro universo depositário das partículas de nada do construtor.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
GENEALOGIA (4)
O medo e a transgressão
O disfarce e a submissão
Correm no meu sangue
Confinado à beira baixa.
No retrato duma trisavó
Na terra
No nome da família
Inscreve-se ao baixo o rasto milenar da judeia na cara do meu
[sangue.
Passei a exigir-me judeu
Vestígio da nobreza do meu sangue
Berbere celta negróide.
E há segredos de roda
Tradição familiar fantasiosa de aristocracia presuntiva
Sem um pingo da nobreza do meu sangue.
A verdade é que no meu sangue há criadas de servir
Criadas em locais remotos duma baixa beira
Terra de contrabando e crime
Terra de ninguém.
O disfarce e a submissão
Correm no meu sangue
Confinado à beira baixa.
No retrato duma trisavó
Na terra
No nome da família
Inscreve-se ao baixo o rasto milenar da judeia na cara do meu
[sangue.
Passei a exigir-me judeu
Vestígio da nobreza do meu sangue
Berbere celta negróide.
E há segredos de roda
Tradição familiar fantasiosa de aristocracia presuntiva
Sem um pingo da nobreza do meu sangue.
A verdade é que no meu sangue há criadas de servir
Criadas em locais remotos duma baixa beira
Terra de contrabando e crime
Terra de ninguém.
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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
OBSIDIA
Houve tempo em que julguei não ter tempo para ler a minha máxima ambição foi então a de dispor de tempo para ler uma página por dia uma página de boa prosa uma pauta de sinfonia aquiliniana um fresco dum vasto painel de paço d'arcos (joaquim) ler ler era só o que eu queria na paragem da carris podia ser ganhei o hábito de fugir ao almoço para ler ler ler voltado para a parede sem aturar chatos e ler a sós com o meu livro depois deixei de saber falar cada encontro um contratempo uma irritação um aborrecimento ler ler leer.
Mas pouco para dizer e nada para escrever.
30-X-2006
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Joaquim Paço d'Arcos
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
GENEALOGIA (3)
No meu sangue há homens do mar
Celtas de olho azul vindos em balsas
Da verde erin.
Tiveram poiso por séculos na costa norte
Mas logo se lançaram a esse mar
Acima do árctico
E desceram a sul
À aventura e à rapina.
Celtas de olho azul
Branco o loiro da barba
Neve da terra nova.
Celtas de olho azul
Roupa colada ao visco do corpo
Calor húmido dos trópicos.
Homens e mulheres da pesca e do peixe
Da costa nova à capital do império
Onde assentaram arraiais os filhos dos arrais.
Em lisboa se fixam
Trazem despojos vivos
Dos restos d'além-mar
E com eles se misturam.
No meu sangue
Tudo isto e ainda mais.
Celtas de olho azul vindos em balsas
Da verde erin.
Tiveram poiso por séculos na costa norte
Mas logo se lançaram a esse mar
Acima do árctico
E desceram a sul
À aventura e à rapina.
Celtas de olho azul
Branco o loiro da barba
Neve da terra nova.
Celtas de olho azul
Roupa colada ao visco do corpo
Calor húmido dos trópicos.
Homens e mulheres da pesca e do peixe
Da costa nova à capital do império
Onde assentaram arraiais os filhos dos arrais.
Em lisboa se fixam
Trazem despojos vivos
Dos restos d'além-mar
E com eles se misturam.
No meu sangue
Tudo isto e ainda mais.
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
DÁDIVA
Levou-lhe a chávena
À boca uma dádiva
Assim parecia.
Depois de lhe provar
O mel outra coisa
Já não queria.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
GENEALOGIA (2)
O meu sangue correu pelo atlântico
Entre barcos negreiros de costa a costa
Companhias de navegação do norte ao sul
E do sul para o norte.
Há no meu sangue alguém subtraído
Aos pais aos filhos ao amor da terra
Capturado por tribo inimiga
Prisioneiro de guerra
Ou de cilada armada.
Um negro
Robusto que bastasse para sobreviver à travessia do oceano
Grilhetas nos pulsos nos tornozelos no pescoço e na alma
Ou uma negra
Da costa dos escravos ao mercado da baía
Ou qualquer parte do brasil onde se vendesse gente como
[mercadoria.
O meu sangue negro perde-se numa noite secular
Até um português do meu sangue branco (branco?)
Trazer uma bisavó mulata com sua mãe liberta
A bisavó que hasteava a ordem&progresso à varanda
Quando se pilhava e matava na lisboa republicana.
África américa europa américa europa
O meu sangue fez o triângulo do mar.
Entre barcos negreiros de costa a costa
Companhias de navegação do norte ao sul
E do sul para o norte.
Há no meu sangue alguém subtraído
Aos pais aos filhos ao amor da terra
Capturado por tribo inimiga
Prisioneiro de guerra
Ou de cilada armada.
Um negro
Robusto que bastasse para sobreviver à travessia do oceano
Grilhetas nos pulsos nos tornozelos no pescoço e na alma
Ou uma negra
Da costa dos escravos ao mercado da baía
Ou qualquer parte do brasil onde se vendesse gente como
[mercadoria.
O meu sangue negro perde-se numa noite secular
Até um português do meu sangue branco (branco?)
Trazer uma bisavó mulata com sua mãe liberta
A bisavó que hasteava a ordem&progresso à varanda
Quando se pilhava e matava na lisboa republicana.
África américa europa américa europa
O meu sangue fez o triângulo do mar.
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011
César Franck
Empolgante monotonia
Deslumbrante melancolia.
Sinfonia em Ré Menor. 3. Allegro non tropo (Otto Klemperer)
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
GENEALOGIA (1)
No meu sangue há
Comerciantes austeros de suíças brancas e longas
Relógios de cordão de ouro e ar respeitável
(Talvez o fossem)
Um ar que se permitia pendurar-se
Nas paredes de pé direito muito alto
Em casas do século dezoito.
Trataram na ribeira das naus do que chegava do brasil da índia e
[das partes de áfrica
Alguns deixaram as mulheres e descobriram no regresso filhos
[com treze meses de gestação
Alguns deixaram as mulheres e descobriram-se pais de outros
[filhos em paragens distantes
Perdoai-lhes senhor
Que todos sabiam o que faziam.
Foram vizinhos do bernardo soares
Sem que o notassem
Estiveram cercados à fome pelos castelhanos em mil trezentos e
[oitenta e quatro
Circularam em contágio de curiosidade entre o carmo e o arsenal
[no vinte e cinco de abril
Sem espalhafato que a sua política era o trabalho
Vaguearam doidos varridos quando o grande terramoto lhes
[ruiu bens e família
Sobreviveram como puderam aos exércitos de bonaparte e à
[tropa de beresford.
Em lisboa há séculos
Pergunto(-me) o que são e de onde vieram.
Prosperaram e caíram
O triunfo não era da sua natureza
Acertavam quando calhava para tudo se desconjuntar na geração
[seguinte
Cabeças no ar e mau vinho
Importação de fruta exótica e lugares na praça da figueira
Prédios no bairro alto e campo de ourique habitação ao rossio
Cruzaram-se com o eça quando ia visitar os pais chegado de paris
Mas também não deram por isso.
Já ninguém mora nas casas pombalinas e o soalho deixou de
[ranger.
Desde então a família circula dispersa-se e desfaz-se.
Comerciantes austeros de suíças brancas e longas
Relógios de cordão de ouro e ar respeitável
(Talvez o fossem)
Um ar que se permitia pendurar-se
Nas paredes de pé direito muito alto
Em casas do século dezoito.
Trataram na ribeira das naus do que chegava do brasil da índia e
[das partes de áfrica
Alguns deixaram as mulheres e descobriram no regresso filhos
[com treze meses de gestação
Alguns deixaram as mulheres e descobriram-se pais de outros
[filhos em paragens distantes
Perdoai-lhes senhor
Que todos sabiam o que faziam.
Foram vizinhos do bernardo soares
Sem que o notassem
Estiveram cercados à fome pelos castelhanos em mil trezentos e
[oitenta e quatro
Circularam em contágio de curiosidade entre o carmo e o arsenal
[no vinte e cinco de abril
Sem espalhafato que a sua política era o trabalho
Vaguearam doidos varridos quando o grande terramoto lhes
[ruiu bens e família
Sobreviveram como puderam aos exércitos de bonaparte e à
[tropa de beresford.
Em lisboa há séculos
Pergunto(-me) o que são e de onde vieram.
Prosperaram e caíram
O triunfo não era da sua natureza
Acertavam quando calhava para tudo se desconjuntar na geração
[seguinte
Cabeças no ar e mau vinho
Importação de fruta exótica e lugares na praça da figueira
Prédios no bairro alto e campo de ourique habitação ao rossio
Cruzaram-se com o eça quando ia visitar os pais chegado de paris
Mas também não deram por isso.
Já ninguém mora nas casas pombalinas e o soalho deixou de
[ranger.
Desde então a família circula dispersa-se e desfaz-se.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
CASTANHO (CORES & NOMES)
A beira é castanha entre bosques e largas extensões de terra-de-ninguém.
Digo beira e penso em aquilino.
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
CÃO
Os dias passam por ele
Sem que ele dê pelo passar dos dias por ele
Adoece e não sabe que é o fim
Abana a cauda
E sucumbe
Ao tiro no crânio
Sem espanto
À injecção letal
Em paz.
27-I-2003
Sem que ele dê pelo passar dos dias por ele
Adoece e não sabe que é o fim
Abana a cauda
E sucumbe
Ao tiro no crânio
Sem espanto
À injecção letal
Em paz.
27-I-2003
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
BRANCO NO BRANCO
A vida até me correria bem não fora a morte às vezes pairar.
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
BICHANO
Serias um gato
Se fosses bicho.
Um gato a roçagar
Me as pernas melífluo
A saltar – miau – para o
Colo de encontro ao
Meu peito a ronronar
Descarado
Imperial
Bichano
Gata.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
sábado, 3 de dezembro de 2011
"AZNAR, BUSH E BLAIR"
Quando eu era jovem, as massas industriaram-me na poesia
SOARES LADRÃO / ROUBA O PÃO
Alertavam-me as paredes
Com a força das convicções
E dos erros ortográficos.
Por vezes os versos eram brancos
Embora vermelhos
Por vezes eram brancos.
Assim o muro da recta do dafundo:
SOARES LADRÃO AMDA A ROUBAR O DINHEIRO DO POVO GATUNO
Podíamos ler nos idos de 70
E até algum 80.
Ainda hoje a poesia popular me persegue.
3-VII-2003
*palavra-de-ordem na manifestação contra a guerra no Iraque:
"aznar,bush & blair / esta guerra ninguém quer!"
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Mário Soares
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
EU QUERERIA ESCREVER POEMAS
(atraiçoo Alba de Céspedes)
Eu quereria escrever poemas à noite
E não posso.
Tenho de traduzir os textos
Publicitários
Dum creme de beleza.
Vejo pessoas rapazes
Que não são aqueles
Que desejaria ver.
Os outros não os conheço.
Converso com raparigas na cantina
E dizemos coisas
[tirado de Alba de Céspedes, Chansons des Filles de Mai, aux Éditions du Seuil, Paris, 1968 - original aqui]
Eu quereria escrever poemas à noite
E não posso.
Tenho de traduzir os textos
Publicitários
Dum creme de beleza.
Vejo pessoas rapazes
Que não são aqueles
Que desejaria ver.
Os outros não os conheço.
Converso com raparigas na cantina
E dizemos coisas
Idiotas
Que não merecem ser ditas.
Tenho medo de habituar-me
E seguir assim até à morte.
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traições
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
A PALAVRA INESPERADA
Do estômago sobe-me a palavra inesperada
Entre a língua destravada e o palato força-me
A boca desabusada desesperada
Rasteira-me a mão e cai
Sobre o papel
Estatelada
Entre a língua destravada e o palato força-me
A boca desabusada desesperada
Rasteira-me a mão e cai
Sobre o papel
Estatelada
13-VI-2003 /
/ 10-XII-2005
domingo, 27 de novembro de 2011
ANIMAIS
Animais
No silêncio com que comemos.
Animais
Na marcação do território.
E animais desafiados por um olhar.
No silêncio com que comemos.
Animais
Na marcação do território.
E animais desafiados por um olhar.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
RETRATO DE ANTERO DE QUENTAL POR COLUMBANO (1889)
Camões póstumo de outra crise
Agonia do mesmo império máscara de fim
Génio inconsiderado santo impiedoso
Inconsolado e tenebroso órfão da ideia
Da vida viúvo.
(alterado, 29.XI.2012)
Agonia do mesmo império máscara de fim
Génio inconsiderado santo impiedoso
Inconsolado e tenebroso órfão da ideia
Da vida viúvo.
(alterado, 29.XI.2012)
Columbano Bordalo Pinheiro, Retrato de Antero de Quental, 1889
Museu do Chiado, Lisboa
terça-feira, 22 de novembro de 2011
AMARELO (CORES & NOMES)
O alentejo é amarelo amarelo a perder de vista com fieiras de girassóis de pescoço esticado em direcção ao sol.
Digo alentejo e penso em manuel da fonseca esse maltês.
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Manuel da Fonseca
sábado, 19 de novembro de 2011
3 VISÕES DO TERROR
"O terror não chora."
Camilo Castelo Branco
Africanos a bordo dum navio negreiro chegados a porto deconhecido.
Índios em quotidiano de reserva juntando fragmentos estilhaçados duma ancestralidade perdida.
Espectros silenciosos de judeus nos campos de extermínio nazi aguardando a entrada de
[tropas aliadas.
(retocado
1.ª postagem: 24.II.2008)
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história antiga,
mundo cão
POR MÃO PRÓPRIA
Não te afastes não fujas não desistas.
Há uma escrita que se extingue
E uma alegria que se esvai
Se te afastares se fugires e desistires de mim.
Há uma escrita que se extingue
E uma alegria que se esvai
Se te afastares se fugires e desistires de mim.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
OCORRÊNCIA
Perdi o lápis no mar do guincho.
21-IX-2006
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Guincho
sábado, 27 de novembro de 2010
domingo, 14 de novembro de 2010
domingo, 17 de maio de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
domingo, 18 de janeiro de 2009
DIÁLOGO NORTE-SUL
O
ão
ção
ação
lação
ulação
mulação
umulação
cumulação
acumulação
cumulação
umulação
mulação
ulação
lação
ação
ção
ão
o
ão
ção
ação
lação
ulação
mulação
umulação
cumulação
acumulação
cumulação
umulação
mulação
ulação
lação
ação
ção
ão
o
domingo, 26 de outubro de 2008
domingo, 12 de outubro de 2008
domingo, 29 de junho de 2008
domingo, 11 de maio de 2008
RESIGNAÇÃO
Estudos ensaios de leitura crítica antologias e recolhas epistolográficas tudo isso damos à estampa.
Só nos falta o talento do criador.
(Alterado em 18-V-2008)
sábado, 19 de abril de 2008
ADUBO
O talento dos autores que estudamos é uma espécie de adubo que nos faz medrar a nossa pequena notoriedade ganha-se à sua custa.
sábado, 22 de março de 2008
domingo, 27 de janeiro de 2008
sábado, 24 de novembro de 2007
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