segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

GANCHINHO

Põe no cabelo um ganchinho
Destapa a orelha   deixa
Ver a curva do rosto até
Ao queixo   assim   de perfil
Fecha os olhos   inclina-te
Para trás   ligeiramente   como se
Quisesses arrancar-me um beijo   e não
Eu   em desvario   to cobiçasse.

4-I-2011

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O ESCRIBA ADESTRADO

As palavras são como as mulheres   há que saber pegar nelas da melhor maneira.  

O que nem sempre sucede.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

CONJECTURA

O sorriso que me olha sabe
O que dele pretendo  
E em sorriso suspenso
Me deixa como se não
Soubesse o que pretende.
4-I-2011

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DÍPTICO IRAQUIANO

1. SADDAM HUSSEIN EM CONFERÊNCIA ÍNTIMA

Diz as maiores barbaridades diante duma audiência restrita e escolhida
Fingem sorver as suas palavras   como se de ensinamentos do profeta se           
                                                                                                        [tratasse
(Ou sorvem-nas realmente   decifrando o mistério que reside em cada  
                                                                                                       [tirano)
Saddam perora   sentencia   pára de falar por segundos que parecem
                                                                                                [eternidades
Como que alheio à tragédia que ele próprio é.
                                                                                                                                                                                                         I-2003

2. EMBARQUE

(Os marines rumam ao Golfo Pérsico.
 Vejo, na televisão, um rapazinho
 de sete ou oito anos, agarrado ao pai.)

Vai   despede-te do pai
Vai matar ou morrer no
Deserto.

As lágrimas embaciam-te
Os óculos   e não percebes
Meu pequeno   porque há
Homens maus a afastá-lo
De ti.

America will prevail.

Oh yes   democracy
Como sempre.

Ainda não o sabes   mas
Já o perdeste   pequeno
Mesmo de volta
Virá com a morte
Nos olhos   a morte
Dos que têm o teu
Tamanho   pequeno.
2-VI-2003

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

GENEALOGIA (5)

Há partículas do meu sangue vindas do outro lado do estreito de
                                                                                        [tariq

Guerreiros de alfange à cinta tomaram muralhas
Desbarataram o rei rodrigo
Guerrearam-se entre si.

Sangue quente em terra quente
Useiro e vezeiro no trabalho violento do gado
Manadas conduzidas por léguas e léguas além tejo
Oeste e volta
Noites dormidas onde calhava
Ao relento e ao luar
Noites transfiguradas pela geometria fractal dos corpos celestes.

Este meu sangue da barbaria
Alento de macho cobridor sem maldade ou pudor
De fácil turvação à vertigem de uns olhos rasgados em tez morena
Sangue berbere espalhado sem ida nem volta pelas margens
                                                               [de aquém Tejo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

DEPOIS DE LER «O APRENDIZ SECRETO» DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

O construtor sabe que veio do nada e vai para o nada   provém do magma imemorial das origens e sente que não existe outro futuro para além da poeira cósmica resultante da decrepitude inevitável do planeta   não lhe basta o instinto vital da procriação   frui cada corpo como matéria primeva e análoga a si   e luta   incessantemente luta o construtor por uma estética do bem que acolha a beleza e a fealdade imanentes   o sémen e os excrementos que fertilizarão a massa informe resultante da nova agregação do pó   até à eclosão dum outro universo   depositário das partículas de nada do construtor.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

GENEALOGIA (4)

O medo e a transgressão
O disfarce e a submissão
Correm no meu sangue
Confinado à beira baixa.

No retrato duma trisavó
Na terra
No nome da família
Inscreve-se ao baixo o rasto milenar da judeia na cara do meu
                                                                                   [sangue.

Passei a exigir-me judeu
Vestígio da nobreza do meu sangue
Berbere celta negróide.

E há segredos de roda
Tradição familiar fantasiosa de aristocracia presuntiva
Sem um pingo da nobreza do meu sangue.

A verdade é que no meu sangue há criadas de servir
Criadas em locais remotos duma baixa beira
Terra de contrabando e crime
Terra de ninguém.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

OBSIDIA

Houve tempo em que julguei não ter tempo para ler   a minha máxima ambição foi então a de dispor de tempo para ler   uma página por dia   uma página de boa prosa   uma pauta de sinfonia aquiliniana   um fresco dum vasto painel de paço d'arcos (joaquim)   ler ler   era só o que eu queria   na paragem da carris   podia ser   ganhei o hábito de fugir ao almoço para ler ler ler   voltado para a parede sem aturar chatos e ler a sós com o meu livro   depois deixei de saber falar   cada encontro um contratempo   uma irritação   um aborrecimento   ler ler leer.

Mas pouco para dizer   e nada para escrever.

30-X-2006

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

GENEALOGIA (3)

No meu sangue há homens do mar
Celtas de olho azul vindos em balsas
Da verde erin.

Tiveram poiso por séculos na costa norte 
Mas logo se lançaram a esse mar
Acima do árctico
E desceram a sul
À aventura e à rapina.

Celtas de olho azul
Branco o loiro da barba
Neve da terra nova.

Celtas de olho azul
Roupa colada ao visco do corpo
Calor húmido dos trópicos.

Homens e mulheres da pesca e do peixe
Da costa nova à capital do império
Onde assentaram arraiais os filhos dos arrais.

Em lisboa se fixam
Trazem despojos vivos
Dos restos d'além-mar
E com eles se misturam.

No meu sangue
Tudo isto e ainda mais.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

DÁDIVA

Levou-lhe a chávena
À boca   uma dádiva
Assim parecia.

Depois de lhe provar
O mel  outra coisa
Já não queria.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

GENEALOGIA (2)

O meu sangue correu pelo atlântico
Entre barcos negreiros de costa a costa
Companhias de navegação do norte ao sul
E do sul para o norte.

Há no meu sangue alguém subtraído
Aos pais aos filhos ao amor da terra
Capturado por tribo inimiga
Prisioneiro de guerra
Ou de cilada armada.

Um negro
Robusto que bastasse para sobreviver à travessia do oceano
Grilhetas nos pulsos nos tornozelos no pescoço e na alma
Ou uma negra
Da costa dos escravos ao mercado da baía
Ou qualquer parte do brasil onde se vendesse gente como
                                                                           [mercadoria.

O meu sangue negro perde-se numa noite secular
Até um português do meu sangue branco (branco?)
Trazer uma bisavó mulata com sua mãe liberta
A bisavó que hasteava a ordem&progresso à varanda
Quando se pilhava e matava na lisboa republicana.

África américa europa américa europa
O meu sangue fez o triângulo do mar.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

César Franck

Empolgante monotonia
Deslumbrante melancolia.


Sinfonia em Ré Menor. 3. Allegro non tropo (Otto Klemperer)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

GENEALOGIA (1)

No meu sangue há
Comerciantes austeros de suíças brancas e longas
Relógios de cordão de ouro e ar respeitável

(Talvez o fossem)
Um ar que se permitia pendurar-se
Nas paredes de pé direito muito alto
Em casas do século dezoito.

Trataram na ribeira das naus do que chegava do brasil da índia e
                                                                               [das partes de áfrica
Alguns deixaram as mulheres e descobriram no regresso filhos
                                                                    [com treze meses de gestação
Alguns deixaram as mulheres e descobriram-se pais de outros
                                                                        [filhos em paragens distantes
Perdoai-lhes senhor
Que todos sabiam o que faziam.

Foram vizinhos do bernardo soares
Sem que o notassem
Estiveram cercados à fome pelos castelhanos em mil trezentos e
                                                                                    [oitenta e quatro
Circularam em contágio de curiosidade entre o carmo e o arsenal
                                                                                [no vinte e cinco de abril
Sem espalhafato que a sua política era o trabalho
Vaguearam doidos varridos quando o grande terramoto lhes
                                                                                    [ruiu bens e família
Sobreviveram como puderam aos exércitos de bonaparte e à
                                                                                    [tropa de beresford.

Em lisboa há séculos
Pergunto(-me) o que são e de onde vieram.

Prosperaram e caíram
O triunfo não era da sua natureza
Acertavam quando calhava para tudo se desconjuntar na geração
                                                                                      [seguinte
Cabeças no ar e mau vinho
Importação de fruta exótica e lugares na praça da figueira
Prédios no bairro alto e campo de ourique habitação ao rossio
Cruzaram-se com o eça quando ia visitar os pais chegado de paris
Mas também não deram por isso.
Já ninguém mora nas casas pombalinas e o soalho deixou de
                                                                                      [ranger.

Desde então a família circula dispersa-se e desfaz-se.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

CASTANHO (CORES & NOMES)

A beira é castanha   entre bosques e largas extensões de terra-de-ninguém.

Digo beira   e penso em aquilino.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

CÃO

Os dias passam por ele
Sem que ele dê pelo passar dos dias por ele
Adoece e não sabe que é o fim
Abana a cauda
E sucumbe
          Ao tiro no crânio
Sem espanto
          À injecção letal
Em paz.


                                                                                                                      
27-I-2003

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

BRANCO NO BRANCO

A vida até me correria bem   não fora a morte às vezes pairar.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

BICHANO

Serias um gato
Se fosses bicho.

Um gato a roçagar
Me as pernas   melífluo
A saltar – miau – para o
Colo de encontro ao
Meu peito a ronronar
Descarado
           Imperial
                    Bichano
                             Gata.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

LOVE STORY

Já nem sabe há quanto tempo a não pode amar.

sábado, 3 de dezembro de 2011

"AZNAR, BUSH E BLAIR"

Quando eu era jovem, as massas industriaram-me na poesia
                                                                         [popular:
SOARES LADRÃO / ROUBA O PÃO
Alertavam-me as paredes
Com a força das convicções
E dos erros ortográficos.

Por vezes os versos eram brancos
Embora vermelhos
Por vezes eram brancos.

Assim o muro da recta do dafundo:
SOARES LADRÃO AMDA A ROUBAR O DINHEIRO DO POVO GATUNO
                                                              [VAI PARA A RUA JÁ!
Podíamos ler nos idos de 70
E até algum 80.

Ainda hoje a poesia popular me persegue.

3-VII-2003
*palavra-de-ordem na manifestação contra a guerra no Iraque:
"aznar,bush & blair / esta guerra ninguém quer!"

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

EU QUERERIA ESCREVER POEMAS

(atraiçoo Alba de Céspedes)

Eu quereria escrever poemas   à noite
E não posso.
Tenho de traduzir os textos
Publicitários
Dum creme de beleza.

Vejo pessoas   rapazes
Que não são aqueles
Que desejaria ver.
Os outros   não os conheço.

Converso com raparigas   na cantina
E dizemos coisas
Idiotas
Que não merecem ser ditas.

Tenho medo de habituar-me
E seguir assim   até à morte.

[tirado de Alba de Céspedes, Chansons des Filles de Mai, aux Éditions du Seuil, Paris, 1968 - original aqui