sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

VEM

Já somos nada
Quando a morte nos persegue.
Esperamo-la   implacável
Com o anúncio dos primeiros sinais.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ESPERA

Noite fechada trouxe-me aqui   ao alto portão de ferro   Agarro-me às grades como um escravo da luz de breu   Passo o portão e em dois passos estou na abadia que parecia distar léguas   Um cheiro fétido a suor e a burel revelam um monge que me fita silencioso   Trespassa-me uma ventania de claustro e o piso antes terroso é agora de pedra   Não consigo articular uma palavra   apenas sons abafados pelos sinos que me ensurdecem   Os olhos de dentro do capuz indicam agora um rectângulo da laje   Gravado está o meu nome o dia do meu nascimento e o desta noite.
Agosto de 2000
(com alterações)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ESPECTROS

Dos meus mortos não fica a memória  senão em mim e que em mim morrerá
Justiça do tempo para os que viram a vida passar?

Alguns não deixaram rasto   e toda a sua vida fez sentido.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

SUBLIME PORTA

Amolece-te a vontade
O vapor do banho turco.
A memória de há pouco   todo o querer
Já passou.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ESCREVES...

Escreves escreves escreves escreves
Nada do que dizes rompe a superfície do papel.

Escreves escreves escreves escreves
Entre o panache a a autocomiseração
O artifício e a louvaminha
O lacrimejar e a traição
Escreves escreves escreves escreves
E tudo quanto escreves escreves escreves
Escreves tem o selo de validade para hoje
Promoção de último modelo
Gravata de saldo
Embuste de tablóide
Passatempo de televisão.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

POESIA PUTA

A poesia puta pede favor
Enfeita-se   faz efeito   quer impressionar.

É da barganha a poesia puta
Joga por influência
Rasteja por atenção.

«Vejam como é a puta
Que pariu esta poesia puta»
Gostaria ela de não dizer
Mas diz   a poesia vendida.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

EM BAGDADE, TODAS AS MANHÃS

As famílias já não precisam de despedir-se dos pais   todas as manhãs
As famílias deixaram de ter pais   todas as manhãs
As famílias perderam-se das famílias   todas as manhãs de bagdade.

20-III-2007

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

PARIS, 1927

O que há nos olhos dum auto-retrato?

A coragem de ser   em Paris   1927.

Estes olhos aguardavam de almada os olhos
O corpo   o espírito.

Não sei de sarah sem almada
A não ser a suspeita levantada pelo
Retrato que de si fez   antes de almada.

O que se ganhou?

O que se perdeu?






Sarah Affonso, Auto-Retrato, 1927
Col. particular

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

E

E de elegante
E de elaborado
E de espasmódico   de efluente   de ejaculatório   de electrizante e de electromagneto   de entusiamante e de espectaculoso
E de eia!

E de edificante   de egrégio   de emérito   de engrandecido.

E de egipciano e de eleusínico
E do espanto.

E de enobrecido   de efes-e-erres   de elanguescente   de envolvente e
       [estiloso
E de escol
E de esmerilhado e também de elemental   de escandido e de escorrente.

E de etnológico   de ebanítico, de eldorado
E de escarlate   de ele e de ella
E de ecuménico
E de espalhado
E de estuário.

E de edénico   de espiritual e de espiritoso   de enigmático   de evanescente.

E de eficaz   de estremecido e de excelente.

E de «Duke»
E de Ellington.

22-XI-2006
Ellington, «La Plus Belle Africaine»

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O VELHO MILITANTE VÊ O MURO RUIR

E de repente percebeu que tudo aquilo por que lutara havia deixado de ser importante para as pessoas  Perguntava-se até se alguma vez o fora  Chegara a ter a impressão de que se sorriam dele  Surdiu-lhe uma angústia enorme  O peito doía-lhe e comprimia-se  Vivera em vão e isso estava para além do que podia suportar

30-V-2006

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

DO IRRELEVANTE

As bibliotecas públicas não aguentam os nossos livros.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

GANCHINHO

Põe no cabelo um ganchinho
Destapa a orelha   deixa
Ver a curva do rosto até
Ao queixo   assim   de perfil
Fecha os olhos   inclina-te
Para trás   ligeiramente   como se
Quisesses arrancar-me um beijo   e não
Eu   em desvario   to cobiçasse.

4-I-2011

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O ESCRIBA ADESTRADO

As palavras são como as mulheres   há que saber pegar nelas da melhor maneira.  

O que nem sempre sucede.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

CONJECTURA

O sorriso que me olha sabe
O que dele pretendo  
E em sorriso suspenso
Me deixa como se não
Soubesse o que pretende.
4-I-2011

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DÍPTICO IRAQUIANO

1. SADDAM HUSSEIN EM CONFERÊNCIA ÍNTIMA

Diz as maiores barbaridades diante duma audiência restrita e escolhida
Fingem sorver as suas palavras   como se de ensinamentos do profeta se           
                                                                                                        [tratasse
(Ou sorvem-nas realmente   decifrando o mistério que reside em cada  
                                                                                                       [tirano)
Saddam perora   sentencia   pára de falar por segundos que parecem
                                                                                                [eternidades
Como que alheio à tragédia que ele próprio é.
                                                                                                                                                                                                         I-2003

2. EMBARQUE

(Os marines rumam ao Golfo Pérsico.
 Vejo, na televisão, um rapazinho
 de sete ou oito anos, agarrado ao pai.)

Vai   despede-te do pai
Vai matar ou morrer no
Deserto.

As lágrimas embaciam-te
Os óculos   e não percebes
Meu pequeno   porque há
Homens maus a afastá-lo
De ti.

America will prevail.

Oh yes   democracy
Como sempre.

Ainda não o sabes   mas
Já o perdeste   pequeno
Mesmo de volta
Virá com a morte
Nos olhos   a morte
Dos que têm o teu
Tamanho   pequeno.
2-VI-2003

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

GENEALOGIA (5)

Há partículas do meu sangue vindas do outro lado do estreito de
                                                                                        [tariq

Guerreiros de alfange à cinta tomaram muralhas
Desbarataram o rei rodrigo
Guerrearam-se entre si.

Sangue quente em terra quente
Useiro e vezeiro no trabalho violento do gado
Manadas conduzidas por léguas e léguas além tejo
Oeste e volta
Noites dormidas onde calhava
Ao relento e ao luar
Noites transfiguradas pela geometria fractal dos corpos celestes.

Este meu sangue da barbaria
Alento de macho cobridor sem maldade ou pudor
De fácil turvação à vertigem de uns olhos rasgados em tez morena
Sangue berbere espalhado sem ida nem volta pelas margens
                                                               [de aquém Tejo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

DEPOIS DE LER «O APRENDIZ SECRETO» DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

O construtor sabe que veio do nada e vai para o nada   provém do magma imemorial das origens e sente que não existe outro futuro para além da poeira cósmica resultante da decrepitude inevitável do planeta   não lhe basta o instinto vital da procriação   frui cada corpo como matéria primeva e análoga a si   e luta   incessantemente luta o construtor por uma estética do bem que acolha a beleza e a fealdade imanentes   o sémen e os excrementos que fertilizarão a massa informe resultante da nova agregação do pó   até à eclosão dum outro universo   depositário das partículas de nada do construtor.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

GENEALOGIA (4)

O medo e a transgressão
O disfarce e a submissão
Correm no meu sangue
Confinado à beira baixa.

No retrato duma trisavó
Na terra
No nome da família
Inscreve-se ao baixo o rasto milenar da judeia na cara do meu
                                                                                   [sangue.

Passei a exigir-me judeu
Vestígio da nobreza do meu sangue
Berbere celta negróide.

E há segredos de roda
Tradição familiar fantasiosa de aristocracia presuntiva
Sem um pingo da nobreza do meu sangue.

A verdade é que no meu sangue há criadas de servir
Criadas em locais remotos duma baixa beira
Terra de contrabando e crime
Terra de ninguém.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

OBSIDIA

Houve tempo em que julguei não ter tempo para ler   a minha máxima ambição foi então a de dispor de tempo para ler   uma página por dia   uma página de boa prosa   uma pauta de sinfonia aquiliniana   um fresco dum vasto painel de paço d'arcos (joaquim)   ler ler   era só o que eu queria   na paragem da carris   podia ser   ganhei o hábito de fugir ao almoço para ler ler ler   voltado para a parede sem aturar chatos e ler a sós com o meu livro   depois deixei de saber falar   cada encontro um contratempo   uma irritação   um aborrecimento   ler ler leer.

Mas pouco para dizer   e nada para escrever.

30-X-2006

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

GENEALOGIA (3)

No meu sangue há homens do mar
Celtas de olho azul vindos em balsas
Da verde erin.

Tiveram poiso por séculos na costa norte 
Mas logo se lançaram a esse mar
Acima do árctico
E desceram a sul
À aventura e à rapina.

Celtas de olho azul
Branco o loiro da barba
Neve da terra nova.

Celtas de olho azul
Roupa colada ao visco do corpo
Calor húmido dos trópicos.

Homens e mulheres da pesca e do peixe
Da costa nova à capital do império
Onde assentaram arraiais os filhos dos arrais.

Em lisboa se fixam
Trazem despojos vivos
Dos restos d'além-mar
E com eles se misturam.

No meu sangue
Tudo isto e ainda mais.