quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ETERNIDADE


É tarde
Andei à procura
Da tal eternidade
E não a encontrei.

Ainda não é tarde
Falta-me um guia
Para a eternidade
Que desconheço.

A tal eternidade que
Está em nós em
Mim em ti nos
Dois nós dois num
Instante da tal
Eternidade que
Acaba e dura
Para sempre.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ENTRE PARÊNTESES

De gatas   e sorris  
Candura posta entre parênteses  
Para onde foste nessa hora   quando te chamei
Puta 
E investi desvairado como um cão?  

A candura entre parênteses  
                                      De gatas  
                                                 E sorriste.  

Onde ficaste nessa hora?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

VEM

Já somos nada
Quando a morte nos persegue.
Esperamo-la   implacável
Com o anúncio dos primeiros sinais.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ESPERA

Noite fechada trouxe-me aqui   ao alto portão de ferro   Agarro-me às grades como um escravo da luz de breu   Passo o portão e em dois passos estou na abadia que parecia distar léguas   Um cheiro fétido a suor e a burel revelam um monge que me fita silencioso   Trespassa-me uma ventania de claustro e o piso antes terroso é agora de pedra   Não consigo articular uma palavra   apenas sons abafados pelos sinos que me ensurdecem   Os olhos de dentro do capuz indicam agora um rectângulo da laje   Gravado está o meu nome o dia do meu nascimento e o desta noite.
Agosto de 2000
(com alterações)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ESPECTROS

Dos meus mortos não fica a memória  senão em mim e que em mim morrerá
Justiça do tempo para os que viram a vida passar?

Alguns não deixaram rasto   e toda a sua vida fez sentido.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

SUBLIME PORTA

Amolece-te a vontade
O vapor do banho turco.
A memória de há pouco   todo o querer
Já passou.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ESCREVES...

Escreves escreves escreves escreves
Nada do que dizes rompe a superfície do papel.

Escreves escreves escreves escreves
Entre o panache a a autocomiseração
O artifício e a louvaminha
O lacrimejar e a traição
Escreves escreves escreves escreves
E tudo quanto escreves escreves escreves
Escreves tem o selo de validade para hoje
Promoção de último modelo
Gravata de saldo
Embuste de tablóide
Passatempo de televisão.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

POESIA PUTA

A poesia puta pede favor
Enfeita-se   faz efeito   quer impressionar.

É da barganha a poesia puta
Joga por influência
Rasteja por atenção.

«Vejam como é a puta
Que pariu esta poesia puta»
Gostaria ela de não dizer
Mas diz   a poesia vendida.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

EM BAGDADE, TODAS AS MANHÃS

As famílias já não precisam de despedir-se dos pais   todas as manhãs
As famílias deixaram de ter pais   todas as manhãs
As famílias perderam-se das famílias   todas as manhãs de bagdade.

20-III-2007

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

PARIS, 1927

O que há nos olhos dum auto-retrato?

A coragem de ser   em Paris   1927.

Estes olhos aguardavam de almada os olhos
O corpo   o espírito.

Não sei de sarah sem almada
A não ser a suspeita levantada pelo
Retrato que de si fez   antes de almada.

O que se ganhou?

O que se perdeu?






Sarah Affonso, Auto-Retrato, 1927
Col. particular

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

E

E de elegante
E de elaborado
E de espasmódico   de efluente   de ejaculatório   de electrizante e de electromagneto   de entusiamante e de espectaculoso
E de eia!

E de edificante   de egrégio   de emérito   de engrandecido.

E de egipciano e de eleusínico
E do espanto.

E de enobrecido   de efes-e-erres   de elanguescente   de envolvente e
       [estiloso
E de escol
E de esmerilhado e também de elemental   de escandido e de escorrente.

E de etnológico   de ebanítico, de eldorado
E de escarlate   de ele e de ella
E de ecuménico
E de espalhado
E de estuário.

E de edénico   de espiritual e de espiritoso   de enigmático   de evanescente.

E de eficaz   de estremecido e de excelente.

E de «Duke»
E de Ellington.

22-XI-2006
Ellington, «La Plus Belle Africaine»

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O VELHO MILITANTE VÊ O MURO RUIR

E de repente percebeu que tudo aquilo por que lutara havia deixado de ser importante para as pessoas  Perguntava-se até se alguma vez o fora  Chegara a ter a impressão de que se sorriam dele  Surdiu-lhe uma angústia enorme  O peito doía-lhe e comprimia-se  Vivera em vão e isso estava para além do que podia suportar

30-V-2006

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

DO IRRELEVANTE

As bibliotecas públicas não aguentam os nossos livros.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

GANCHINHO

Põe no cabelo um ganchinho
Destapa a orelha   deixa
Ver a curva do rosto até
Ao queixo   assim   de perfil
Fecha os olhos   inclina-te
Para trás   ligeiramente   como se
Quisesses arrancar-me um beijo   e não
Eu   em desvario   to cobiçasse.

4-I-2011

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O ESCRIBA ADESTRADO

As palavras são como as mulheres   há que saber pegar nelas da melhor maneira.  

O que nem sempre sucede.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

CONJECTURA

O sorriso que me olha sabe
O que dele pretendo  
E em sorriso suspenso
Me deixa como se não
Soubesse o que pretende.
4-I-2011

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DÍPTICO IRAQUIANO

1. SADDAM HUSSEIN EM CONFERÊNCIA ÍNTIMA

Diz as maiores barbaridades diante duma audiência restrita e escolhida
Fingem sorver as suas palavras   como se de ensinamentos do profeta se           
                                                                                                        [tratasse
(Ou sorvem-nas realmente   decifrando o mistério que reside em cada  
                                                                                                       [tirano)
Saddam perora   sentencia   pára de falar por segundos que parecem
                                                                                                [eternidades
Como que alheio à tragédia que ele próprio é.
                                                                                                                                                                                                         I-2003

2. EMBARQUE

(Os marines rumam ao Golfo Pérsico.
 Vejo, na televisão, um rapazinho
 de sete ou oito anos, agarrado ao pai.)

Vai   despede-te do pai
Vai matar ou morrer no
Deserto.

As lágrimas embaciam-te
Os óculos   e não percebes
Meu pequeno   porque há
Homens maus a afastá-lo
De ti.

America will prevail.

Oh yes   democracy
Como sempre.

Ainda não o sabes   mas
Já o perdeste   pequeno
Mesmo de volta
Virá com a morte
Nos olhos   a morte
Dos que têm o teu
Tamanho   pequeno.
2-VI-2003

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

GENEALOGIA (5)

Há partículas do meu sangue vindas do outro lado do estreito de
                                                                                        [tariq

Guerreiros de alfange à cinta tomaram muralhas
Desbarataram o rei rodrigo
Guerrearam-se entre si.

Sangue quente em terra quente
Useiro e vezeiro no trabalho violento do gado
Manadas conduzidas por léguas e léguas além tejo
Oeste e volta
Noites dormidas onde calhava
Ao relento e ao luar
Noites transfiguradas pela geometria fractal dos corpos celestes.

Este meu sangue da barbaria
Alento de macho cobridor sem maldade ou pudor
De fácil turvação à vertigem de uns olhos rasgados em tez morena
Sangue berbere espalhado sem ida nem volta pelas margens
                                                               [de aquém Tejo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

DEPOIS DE LER «O APRENDIZ SECRETO» DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

O construtor sabe que veio do nada e vai para o nada   provém do magma imemorial das origens e sente que não existe outro futuro para além da poeira cósmica resultante da decrepitude inevitável do planeta   não lhe basta o instinto vital da procriação   frui cada corpo como matéria primeva e análoga a si   e luta   incessantemente luta o construtor por uma estética do bem que acolha a beleza e a fealdade imanentes   o sémen e os excrementos que fertilizarão a massa informe resultante da nova agregação do pó   até à eclosão dum outro universo   depositário das partículas de nada do construtor.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

GENEALOGIA (4)

O medo e a transgressão
O disfarce e a submissão
Correm no meu sangue
Confinado à beira baixa.

No retrato duma trisavó
Na terra
No nome da família
Inscreve-se ao baixo o rasto milenar da judeia na cara do meu
                                                                                   [sangue.

Passei a exigir-me judeu
Vestígio da nobreza do meu sangue
Berbere celta negróide.

E há segredos de roda
Tradição familiar fantasiosa de aristocracia presuntiva
Sem um pingo da nobreza do meu sangue.

A verdade é que no meu sangue há criadas de servir
Criadas em locais remotos duma baixa beira
Terra de contrabando e crime
Terra de ninguém.