quarta-feira, 7 de março de 2012

PARA A AVÓ ZÉ

Lembro-me de como gostava de estar
Debruçado sobre a mesa da cozinha
Vendo a avó a ferver as seringas
Numa velha panela redonda de esmalte.

A mesa era grande de mármore
E ali fazia os deveres da escola
Num caderno quadriculado sujo de enganos
Da aritmética com um n.º 2 mal aparado.

Hoje a avó já não ferve as seringas
Mas desfaz os morangos
em compota
Aroma
que anuncia
Escuras tardes de outono.
Estoril, 23-VI-1985

segunda-feira, 5 de março de 2012

NADA


…Mas ele nada tinha para lhe dar
Tocar-lhe era tudo
O que queria.

Fazer com esse nada
Uma porção do tudo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

MEMÓRIA

Nunca escrever
Lábio a lábio
Ou
Sílaba a sílaba
Nem
Rente ao que quer que seja.

Nunca falar
Das zinias
E
Das tílias
(E agora
Também do hibisco).

Fugir
Do
Levedar
E do
Lêvedo.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

IMPERIALISMO DE BOLSO

O rei de espanha que reclama gibraltar visitou ceuta pretendida pelo rei de marrocos que ocupa o saara ocidental antiga colónia espanhola.

6-II-2007

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

HOMEM AO MAR

Ouço os sinos das igrejas
Às horas certas
No vale onde me encontro.

O vento é o meu nevoeiro
O badalar é o mugir do meu farol.

Homem das cidades marítimas
Sinto o cerco dos montes   dos penedos   da floresta.
Sei que há lobos
Javalis escondidos
Cavalos selvagens pastando solitários.

O pio nocturno da coruja
Não me deixa esquecer onde estou.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

GUINCHO

O sol põe-se
Sobre o lento bater das ondas
E despede-se
Do meu corpo de areia.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A MÁSCARA

O riso  
A mofa  
O escárnio
Para que se não repare neste pobre
Mamífero à mercê do acaso
A lisonja por seguro de vida
O desdém em fuga ao compromisso
O urro que apavora em confronto.

Ergo-me deste inferno  
Burlão
Gatuno  
Assassino se mo permitirem
Ergo-me consternado deste inferno em que vivo.

Que retrato é o meu?

20-II-2012

James Ensor, «Auto-Retrato com Máscaras», 1899
colecção particular

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

FADO

Sabiam-se condenados a nunca poderem amar-se
Como a vida a certa altura lhes exigiu.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

VERDE (CORES & NOMES)

O minho é verde   cumeadas de verde   mesmo quando se nos mostram escalavradas no gerês.

Digo minho   e penso em camilo. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ETERNIDADE


É tarde
Andei à procura
Da tal eternidade
E não a encontrei.

Ainda não é tarde
Falta-me um guia
Para a eternidade
Que desconheço.

A tal eternidade que
Está em nós em
Mim em ti nos
Dois nós dois num
Instante da tal
Eternidade que
Acaba e dura
Para sempre.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ENTRE PARÊNTESES

De gatas   e sorris  
Candura posta entre parênteses  
Para onde foste nessa hora   quando te chamei
Puta 
E investi desvairado como um cão?  

A candura entre parênteses  
                                      De gatas  
                                                 E sorriste.  

Onde ficaste nessa hora?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

VEM

Já somos nada
Quando a morte nos persegue.
Esperamo-la   implacável
Com o anúncio dos primeiros sinais.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ESPERA

Noite fechada trouxe-me aqui   ao alto portão de ferro   Agarro-me às grades como um escravo da luz de breu   Passo o portão e em dois passos estou na abadia que parecia distar léguas   Um cheiro fétido a suor e a burel revelam um monge que me fita silencioso   Trespassa-me uma ventania de claustro e o piso antes terroso é agora de pedra   Não consigo articular uma palavra   apenas sons abafados pelos sinos que me ensurdecem   Os olhos de dentro do capuz indicam agora um rectângulo da laje   Gravado está o meu nome o dia do meu nascimento e o desta noite.
Agosto de 2000
(com alterações)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ESPECTROS

Dos meus mortos não fica a memória  senão em mim e que em mim morrerá
Justiça do tempo para os que viram a vida passar?

Alguns não deixaram rasto   e toda a sua vida fez sentido.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

SUBLIME PORTA

Amolece-te a vontade
O vapor do banho turco.
A memória de há pouco   todo o querer
Já passou.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ESCREVES...

Escreves escreves escreves escreves
Nada do que dizes rompe a superfície do papel.

Escreves escreves escreves escreves
Entre o panache a a autocomiseração
O artifício e a louvaminha
O lacrimejar e a traição
Escreves escreves escreves escreves
E tudo quanto escreves escreves escreves
Escreves tem o selo de validade para hoje
Promoção de último modelo
Gravata de saldo
Embuste de tablóide
Passatempo de televisão.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

POESIA PUTA

A poesia puta pede favor
Enfeita-se   faz efeito   quer impressionar.

É da barganha a poesia puta
Joga por influência
Rasteja por atenção.

«Vejam como é a puta
Que pariu esta poesia puta»
Gostaria ela de não dizer
Mas diz   a poesia vendida.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

EM BAGDADE, TODAS AS MANHÃS

As famílias já não precisam de despedir-se dos pais   todas as manhãs
As famílias deixaram de ter pais   todas as manhãs
As famílias perderam-se das famílias   todas as manhãs de bagdade.

20-III-2007

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

PARIS, 1927

O que há nos olhos dum auto-retrato?

A coragem de ser   em Paris   1927.

Estes olhos aguardavam de almada os olhos
O corpo   o espírito.

Não sei de sarah sem almada
A não ser a suspeita levantada pelo
Retrato que de si fez   antes de almada.

O que se ganhou?

O que se perdeu?






Sarah Affonso, Auto-Retrato, 1927
Col. particular