segunda-feira, 19 de março de 2012

RÉPLICA

Eras nesse casamento a imodéstia do vestir
Simples de todos os dias.

Divergias das fêmeas ciosas na igreja
Opulentando de transparência os vestidos
Decotes pelo peito abaixo saltos agulha
Em velado convite à cobrição.

E eras em tudo mais que elas   
Em mérito em cérebro em desejo
Ardente que uma natural reserva
Não conseguia comigo conter-se.

Quase nada era preciso
Para cairmos um no outro.

Mas não sabes ou saberás
Pois isto nunca verás    
Que não eras tu quem eu queria
Pequena árabe
(Ou israelita)
Há séculos convertida  
Retrato da que há anos me agrilhoa.

Tivéssemo-nos tido doce judia
(Ou agarena)   
E seria em outra mulher que eu julgaria estar
O original de ti réplica
Involuntária e imerecida
Na minha cabeça desaustinada.

A que tarde ou cedo lerá estes versos   
Sabendo que é dela que falo e me consome
E se consome pelo medo de se deixar amar.

13-III-2012

sexta-feira, 16 de março de 2012

ÚLTIMA HORA

Escrevo
Pois não consigo estancar
O que em mim verte 
Do belo que me fere
Do horrível que me alimenta.

4-I- / 16-III - 2012

quarta-feira, 14 de março de 2012

TRAÇOS DO CARÁCTER

Sarcástico.
Irónico...
Sardónico?
Mordástico!

25-X-2007

segunda-feira, 12 de março de 2012

SÓ EU SEI

Fechou a porta
Suavemente e
Acendeu a luz.

Só eu sei como não
Sabia o que pensava.

sexta-feira, 9 de março de 2012

RATOS E HOMENS

“But if the while I think on thee, dear friend
All losses are restor'd, and sorrows end.”

Shakespeare


No bosque proibido   romance de mircea eliade   stefan refugiou-se do blitz londrino nas estações do metro.   No bolso levava sempre uma edição dos sonetos de shakespeare   que lia obstinadamente enquanto as bombas caíam.   Os sonnets preservavam-no da ameaça lançada dos céus.   Nessa espécie de esgoto  a poesia fazia a diferença entre ratos e homens.

quarta-feira, 7 de março de 2012

PARA A AVÓ ZÉ

Lembro-me de como gostava de estar
Debruçado sobre a mesa da cozinha
Vendo a avó a ferver as seringas
Numa velha panela redonda de esmalte.

A mesa era grande de mármore
E ali fazia os deveres da escola
Num caderno quadriculado sujo de enganos
Da aritmética com um n.º 2 mal aparado.

Hoje a avó já não ferve as seringas
Mas desfaz os morangos
em compota
Aroma
que anuncia
Escuras tardes de outono.
Estoril, 23-VI-1985

segunda-feira, 5 de março de 2012

NADA


…Mas ele nada tinha para lhe dar
Tocar-lhe era tudo
O que queria.

Fazer com esse nada
Uma porção do tudo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

MEMÓRIA

Nunca escrever
Lábio a lábio
Ou
Sílaba a sílaba
Nem
Rente ao que quer que seja.

Nunca falar
Das zinias
E
Das tílias
(E agora
Também do hibisco).

Fugir
Do
Levedar
E do
Lêvedo.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

IMPERIALISMO DE BOLSO

O rei de espanha que reclama gibraltar visitou ceuta pretendida pelo rei de marrocos que ocupa o saara ocidental antiga colónia espanhola.

6-II-2007

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

HOMEM AO MAR

Ouço os sinos das igrejas
Às horas certas
No vale onde me encontro.

O vento é o meu nevoeiro
O badalar é o mugir do meu farol.

Homem das cidades marítimas
Sinto o cerco dos montes   dos penedos   da floresta.
Sei que há lobos
Javalis escondidos
Cavalos selvagens pastando solitários.

O pio nocturno da coruja
Não me deixa esquecer onde estou.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

GUINCHO

O sol põe-se
Sobre o lento bater das ondas
E despede-se
Do meu corpo de areia.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A MÁSCARA

O riso  
A mofa  
O escárnio
Para que se não repare neste pobre
Mamífero à mercê do acaso
A lisonja por seguro de vida
O desdém em fuga ao compromisso
O urro que apavora em confronto.

Ergo-me deste inferno  
Burlão
Gatuno  
Assassino se mo permitirem
Ergo-me consternado deste inferno em que vivo.

Que retrato é o meu?

20-II-2012

James Ensor, «Auto-Retrato com Máscaras», 1899
colecção particular

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

FADO

Sabiam-se condenados a nunca poderem amar-se
Como a vida a certa altura lhes exigiu.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

VERDE (CORES & NOMES)

O minho é verde   cumeadas de verde   mesmo quando se nos mostram escalavradas no gerês.

Digo minho   e penso em camilo. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ETERNIDADE


É tarde
Andei à procura
Da tal eternidade
E não a encontrei.

Ainda não é tarde
Falta-me um guia
Para a eternidade
Que desconheço.

A tal eternidade que
Está em nós em
Mim em ti nos
Dois nós dois num
Instante da tal
Eternidade que
Acaba e dura
Para sempre.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ENTRE PARÊNTESES

De gatas   e sorris  
Candura posta entre parênteses  
Para onde foste nessa hora   quando te chamei
Puta 
E investi desvairado como um cão?  

A candura entre parênteses  
                                      De gatas  
                                                 E sorriste.  

Onde ficaste nessa hora?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

VEM

Já somos nada
Quando a morte nos persegue.
Esperamo-la   implacável
Com o anúncio dos primeiros sinais.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ESPERA

Noite fechada trouxe-me aqui   ao alto portão de ferro   Agarro-me às grades como um escravo da luz de breu   Passo o portão e em dois passos estou na abadia que parecia distar léguas   Um cheiro fétido a suor e a burel revelam um monge que me fita silencioso   Trespassa-me uma ventania de claustro e o piso antes terroso é agora de pedra   Não consigo articular uma palavra   apenas sons abafados pelos sinos que me ensurdecem   Os olhos de dentro do capuz indicam agora um rectângulo da laje   Gravado está o meu nome o dia do meu nascimento e o desta noite.
Agosto de 2000
(com alterações)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ESPECTROS

Dos meus mortos não fica a memória  senão em mim e que em mim morrerá
Justiça do tempo para os que viram a vida passar?

Alguns não deixaram rasto   e toda a sua vida fez sentido.