sexta-feira, 27 de abril de 2012

MUNDO DE AVENTURAS


Uma pequena aldeia na planície arménia
Nevoeiro matinal no porto de dieppe
O silvar agudo no cimo dos cárpatos
Um castelo solitário num lago escocês

Um junco chinês no mar do japão
Um trilho de camelos na rota da seda
Um catre vazio no mosteiro da arrábida
Uma via romana na serra do gerês

Uma mesa de cozinha e odores de outono
Um eucaliptal onde brinco com o avô
O último número da revista tão esperada
Despojos da infância que se me acabou.

                                                                                           
21 de Março de 2001

segunda-feira, 23 de abril de 2012

HURRAH!

Os olhos eram inexpressivos mas a matrona tchetchena estava feliz como há muito lhe não sucedia   Encontrara o cadáver do neto   Tinha treze anos e brincava com as irmãs no jardim quando passaram os russos e decidiram cortar pela raiz o embrião de terrorista.

28-VI-2003

sexta-feira, 20 de abril de 2012

FRANJA

A franja esconde
Te os olhos grandes
O vestido justo molda
Te as coxas exuberantes
Tão descaradas como
Os teus grandes olhos
Escondidos pela franja.

VI-2003

quarta-feira, 18 de abril de 2012

UM SOBREVIVENTE DO TARRAFAL

Vejo-o velho
Anarquista digno
E austero casaco
Abotoado sem
Gravata nem
Dentes

Quase pede licença para falar

Chega-me um
Hálito de morte
Com a sua voz
Sumida   não me importa
Tanto o que diz
Nem como o diz
A figura é tudo.
24-V-2003

segunda-feira, 16 de abril de 2012

SOL DE JUNHO

O sol de Junho irradia
Sem extinguir-se a moinha
A chover-nos dentro.

Somos atravessados pela melancolia
Choro intenso de lágrimas secas.

Trazemos em nós o próprio feto
Que continuamente violentamos.

VI-2001

sexta-feira, 13 de abril de 2012

RECORRÊNCIA

O pássaro na mão
E eu a pô-lo a voar.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

PERSEGUIÇÃO

Se te distraíste quando falavas e as palavras resvalaram
Se deixaste ferver em demasia a água para o chá
Se um frémito te invade o centro do corpo e sobe até o esmagares com os lábios
Fui eu que passei por baixo da tua janela para estar mais próximo
Fui eu que rondei a tua casa na esperança de te ver à porta.

Eu 
Que me recuso a largar-te e não te deixo em paz.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

NUM DEPÓSITO

[Hemeroteca de Lisboa]

Volumes e volumes de jornais encadernados.

O tudo que é nada.

sexta-feira, 30 de março de 2012

MESSAGE IN A BOTTLE

Deixa-lhe bilhetes para a eternidade
Certo de que só no corpo se alcança a ventura.

quarta-feira, 28 de março de 2012

JÚLIO, DO AR


 Do ar júlio engenheiro jovem
Alto poeta pinta a menina que se
Dá ao bácoro burguês não
Faz mal pensa a menina três
Minutos de nojo o olfacto
Não estranha já.

Podia ser minha neta pensa
O burguês sebento bácoro
São três minutos de engano eu
Bácoro e sebento outros serão
Muitos mais foram.

Do ar júlio jovem pintor e
Alto poeta pensa que a miséria
Humana será lavada com tinta
Cor do sangue.

E chora.
5/6-III-2012

Júlio, O Burguês e a Menina
Centro de Arte Moderna, Lisboa

domingo, 25 de março de 2012

HUMANIDADE

                                                    (Depois de ouvir My Bucket Got's A Hole In It.)

A doçura daquela
Voz a tristeza daqueles
Olhos o calor da
Trompete de
Armstrong o segregado
Desmentindo o ódio.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      7-VI-2005


sexta-feira, 23 de março de 2012

O IMPOSTOR CAI EM SI, E SUPLICA

Agora que me trato por tu
E se desfez a pose fingida
Do sedutor   considera a
Pele na pele a boca na
Boca   as mãos por todo
O lado   permite conceder-
Nos uma fracção de ternura
Uma fracção de (e com isto
Liquido já o poema) tremura.

quarta-feira, 21 de março de 2012

FOLHA

Não a queria
Vergada ou
Quebrada antes
Folha soltando
Se e caindo
Inexorável
               m
               e
               n
               t
               e
Sobre
Si.

segunda-feira, 19 de março de 2012

RÉPLICA

Eras nesse casamento a imodéstia do vestir
Simples de todos os dias.

Divergias das fêmeas ciosas na igreja
Opulentando de transparência os vestidos
Decotes pelo peito abaixo saltos agulha
Em velado convite à cobrição.

E eras em tudo mais que elas   
Em mérito em cérebro em desejo
Ardente que uma natural reserva
Não conseguia comigo conter-se.

Quase nada era preciso
Para cairmos um no outro.

Mas não sabes ou saberás
Pois isto nunca verás    
Que não eras tu quem eu queria
Pequena árabe
(Ou israelita)
Há séculos convertida  
Retrato da que há anos me agrilhoa.

Tivéssemo-nos tido doce judia
(Ou agarena)   
E seria em outra mulher que eu julgaria estar
O original de ti réplica
Involuntária e imerecida
Na minha cabeça desaustinada.

A que tarde ou cedo lerá estes versos   
Sabendo que é dela que falo e me consome
E se consome pelo medo de se deixar amar.

13-III-2012

sexta-feira, 16 de março de 2012

ÚLTIMA HORA

Escrevo
Pois não consigo estancar
O que em mim verte 
Do belo que me fere
Do horrível que me alimenta.

4-I- / 16-III - 2012

quarta-feira, 14 de março de 2012

TRAÇOS DO CARÁCTER

Sarcástico.
Irónico...
Sardónico?
Mordástico!

25-X-2007

segunda-feira, 12 de março de 2012

SÓ EU SEI

Fechou a porta
Suavemente e
Acendeu a luz.

Só eu sei como não
Sabia o que pensava.

sexta-feira, 9 de março de 2012

RATOS E HOMENS

“But if the while I think on thee, dear friend
All losses are restor'd, and sorrows end.”

Shakespeare


No bosque proibido   romance de mircea eliade   stefan refugiou-se do blitz londrino nas estações do metro.   No bolso levava sempre uma edição dos sonetos de shakespeare   que lia obstinadamente enquanto as bombas caíam.   Os sonnets preservavam-no da ameaça lançada dos céus.   Nessa espécie de esgoto  a poesia fazia a diferença entre ratos e homens.

quarta-feira, 7 de março de 2012

PARA A AVÓ ZÉ

Lembro-me de como gostava de estar
Debruçado sobre a mesa da cozinha
Vendo a avó a ferver as seringas
Numa velha panela redonda de esmalte.

A mesa era grande de mármore
E ali fazia os deveres da escola
Num caderno quadriculado sujo de enganos
Da aritmética com um n.º 2 mal aparado.

Hoje a avó já não ferve as seringas
Mas desfaz os morangos
em compota
Aroma
que anuncia
Escuras tardes de outono.
Estoril, 23-VI-1985

segunda-feira, 5 de março de 2012

NADA


…Mas ele nada tinha para lhe dar
Tocar-lhe era tudo
O que queria.

Fazer com esse nada
Uma porção do tudo.