segunda-feira, 16 de julho de 2012

INCÊNDIO

Saboreias a vida foges
Aos compromissos sabes
Que outra não terás vives
Cada dia
             O mais feliz da tua vida.

A impiedade duma sirene diz-
-Te: a vida não é assim.

12-VIII-2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

FALA DO HOMEM FALHADO

Pedes-me palavras
(Só tenho as sílabas do desespero para te dar)
Pedes-me amor
(Nada mais vislumbro senão carne faminta a saciar)

Pedes-me a imortalidade
E eu ergo o muro da descrença de alguma vez te ter.

28-II-2008

quarta-feira, 11 de julho de 2012

CERTIFICADO DE INABILITAÇÕES

A vida é uma comédia
E eu não sei representar.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

RETRATO

A luz própria que se desconhece
O modo aristocrata malgrée elle
A voz suave que não se impõe
O drapejar violeta que oculta as formas
Os olhos meigos atrevendo-se a não mostrar do que são capazes

O seu je ne sais quoi.

ler(n)os outros #5

canta o teu canto mais doce

Crepúsculo dos Instantes

então ele disse que era deus

Íris

Sigilo

Velho amigo

domingo, 8 de julho de 2012

Antologia improvável #2 - Rui Knopfli

ARDE UM FULGOR EXTINTO

Arde um fulgor extinto
no longe da tarde agoniada.
Não me pesaria tanto
a caminhada se, em lugar do dia,
no seu extremo achasse a noite.

Exacta e concisa é a claridade.
Não mente à luz o que a noite
ilude. Terrível destino
o de quem é nocturno à luz solar.

Não vos ponha em cuidado,
porém, este meu penar:

são palavras e não sangram.

Rui Knopfli, Mangas Verdes com Sal (1969) / Obra Poética, Lisboa, 2003.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

«CHAPELARIA» DE AUGUST MACKE (1914)

 Alheada  
Vê as novidades da estação
Pensando no homem distante.

Não o sabe atolado
Nesse mesmo instante
Numa trincheira da flandres. 

Alheado
Vê um capacete francês
E dispara.
5/6-VII-2012


segunda-feira, 2 de julho de 2012

FIM DE TARDE

Pássaros em bando a quem tivessem aberto as gaiolas
Frescas como a aragem que corre após um dia de trabalho
As lojistas passam em silêncio entrando
No fim de tarde de junho com os sacos
Cheios da tralha que só as mulheres usam
Algumas de óculos escuros outras
Cara a descoberto e cabelo apanhado
Vestidos de alças
Ombros nus que apetece beijar.

E eu
Vendo o desfile destas jovens mulheres
Chego a pensar que a vida é bela
Esquecendo por momentos os salários curtos
O horizonte estreito das suas existências
O futuro sem brilho que as espera.

Nada disso tem importância neste fim de tarde quente de junho
Soprando uma aragem que atinge em cheio rostos inexpressivamente belos
Tocados pela luz quase rasante de um sol-pôr
Por entre as frestas de casas muito velhas
Marcadas pelo verdete do inverno

Sintra, 27-VI-2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

CRUZAMENTO





Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite
Álvaro de Campos


Não era para ser como foi   vestido
Acima   de bruços sobre um 
Balcão qualquer.

De mulher nem o nome te sei
Ou o rosto fixei fora uns olhos
Escuros e quase cerrados como
A boca   dizendo em segredo:
Havia de ser ali e já.

Não sei quem és
Não sei o que és
Sei que ficaste assim:
Um sorriso vago  
E despojos de mim.

16-VI-2012

ler(n)os outros #3


Invenção
Trovas
Virtude

segunda-feira, 25 de junho de 2012

ESTESIA

Caderninho numa mão
A esferográfica na outra

O poema nasce.

20-VI-2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

segunda-feira, 18 de junho de 2012

COMENTÁRIO A UM POEMA


Nada é mais belo que o seu desabrochar
O seio que a mulher dá
Com ternura   aos filhos
Com paixão   ao amado
Com tesão    aos amantes.

Sugam os filhos
Beija agarra  lambe o amado
Apertam trincam  batem os amantes
Deixando o peito vermelho de dor e prazer.

E a mulher
Com olhar enlevado  para as crias
Com um sorriso cúmplice para o macho
Cega de volúpia com os amantes
Dá-lhes o seio depois
Com o mesmo sorriso
Meigo   cúmplice   enlevado.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

RORY GALLAGHER: FOLLOW ME

A voz
Grave   quase gutural
Amacia cada riff
Dedilhado com nervo
Como se a vida se esvaísse
Das cordas daquela fender.

Puro malte irlandês.




sexta-feira, 8 de junho de 2012

ROB ROY

Tudo se passou num segundo  quando o juiz-de-fora saiu da estalagem da clareira  na floresta   Nem pudemos estranhar a inquietação das montadas   Das highlands desceram os malditos jacobitas  ululando  cobertos com os tartans coloridos de cada tribo   Só eu  escrevente dos autos  escapei com vida   Poupou-me o que parecia ser o chefe  para que pudesse espalhar a mensagem em londres   «lembrem-se de culloden!»