Cada poema
cada desenho
são os marinheiros que navegaram na minha cama
são uma revolução não só gritada na rua
são uma flor nascendo nos campos
e é o luar e a sua magia
e é a morte que não me quer
e é UMA MULHER
surpreendente como um marinheiro
luminosa como a palavra REVOLUÇÃO
tão natural como o malmequer
tão metafísica como o luar
tão desejada como a morte hoje
A MINHA MÃE
infinita e profunda
como o mar.
Artur do Cruzeiro Seixas, Obra Poética, vol. I, Vila Nova de Famalicão, 2003.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
EL OTRO LADO
A fronteira do inferno com a terra do leite e do mel
O paraíso entrevisto a expressão alvar
Dos ingénuos.
Mas o medo no cândido sorriso
Ignorante dos mastins à entrada
Do céu.
Arrancam-lhe a carne por um níquel
Descarnado e no cachaço palmadas
Condescendentes.
O espanto da perna amputada
Nos olhos.
O paraíso entrevisto a expressão alvar
Dos ingénuos.
Mas o medo no cândido sorriso
Ignorante dos mastins à entrada
Do céu.
Arrancam-lhe a carne por um níquel
Descarnado e no cachaço palmadas
Condescendentes.
O espanto da perna amputada
Nos olhos.
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Rich Hopkins
segunda-feira, 16 de julho de 2012
INCÊNDIO
Saboreias a vida foges
Aos compromissos sabes
Que outra não terás vives
Cada dia
O mais feliz da tua vida.
A impiedade duma sirene diz-
-Te: a vida não é assim.
12-VIII-2012
quinta-feira, 12 de julho de 2012
FALA DO HOMEM FALHADO
Pedes-me palavras
(Só tenho as sílabas do desespero para te dar)
Pedes-me amor
(Nada mais vislumbro senão carne faminta a saciar)
Pedes-me a imortalidade
E eu ergo o muro da descrença de alguma vez te ter.
(Só tenho as sílabas do desespero para te dar)
Pedes-me amor
(Nada mais vislumbro senão carne faminta a saciar)
Pedes-me a imortalidade
E eu ergo o muro da descrença de alguma vez te ter.
28-II-2008
quarta-feira, 11 de julho de 2012
segunda-feira, 9 de julho de 2012
RETRATO
A luz própria que se desconhece
O modo aristocrata malgrée elle
A voz suave que não se impõe
O drapejar violeta que oculta as formas
Os olhos meigos atrevendo-se a não mostrar do que são capazes
O seu je ne sais quoi.
O modo aristocrata malgrée elle
A voz suave que não se impõe
O drapejar violeta que oculta as formas
Os olhos meigos atrevendo-se a não mostrar do que são capazes
O seu je ne sais quoi.
domingo, 8 de julho de 2012
Antologia improvável #2 - Rui Knopfli
ARDE UM FULGOR EXTINTO
Arde um fulgor extinto
no longe da tarde agoniada.
Não me pesaria tanto
a caminhada se, em lugar do dia,
no seu extremo achasse a noite.
Exacta e concisa é a claridade.
Não mente à luz o que a noite
ilude. Terrível destino
o de quem é nocturno à luz solar.
Não vos ponha em cuidado,
porém, este meu penar:
são palavras e não sangram.
Rui Knopfli, Mangas Verdes com Sal (1969) / Obra Poética, Lisboa, 2003.
Arde um fulgor extinto
no longe da tarde agoniada.
Não me pesaria tanto
a caminhada se, em lugar do dia,
no seu extremo achasse a noite.
Exacta e concisa é a claridade.
Não mente à luz o que a noite
ilude. Terrível destino
o de quem é nocturno à luz solar.
Não vos ponha em cuidado,
porém, este meu penar:
são palavras e não sangram.
Rui Knopfli, Mangas Verdes com Sal (1969) / Obra Poética, Lisboa, 2003.
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Rui Knopfli
sexta-feira, 6 de julho de 2012
«CHAPELARIA» DE AUGUST MACKE (1914)
Alheada
Vê as novidades da estação
Pensando no homem distante.
Não o sabe atolado
Nesse mesmo instante
Numa trincheira da flandres.
Alheado
Vê um capacete francês
E dispara.
5/6-VII-2012
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August Macke
quarta-feira, 4 de julho de 2012
segunda-feira, 2 de julho de 2012
FIM DE TARDE
Pássaros em bando a quem tivessem aberto as gaiolas
Frescas como a aragem que corre após um dia de trabalho
As lojistas passam em silêncio entrando
No fim de tarde de junho com os sacos
Cheios da tralha que só as mulheres usam
Algumas de óculos escuros outras
Cara a descoberto e cabelo apanhado
Vestidos de alças
Ombros nus que apetece beijar.
E eu
Vendo o desfile destas jovens mulheres
Chego a pensar que a vida é bela
Esquecendo por momentos os salários curtos
O horizonte estreito das suas existências
O futuro sem brilho que as espera.
Nada disso tem importância neste fim de tarde quente de junho
Soprando uma aragem que atinge em cheio rostos inexpressivamente belos
Tocados pela luz quase rasante de um sol-pôr
Por entre as frestas de casas muito velhas
Marcadas pelo verdete do inverno.
Sintra, 27-VI-2012
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quarta-feira, 27 de junho de 2012
CRUZAMENTO
Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite
Álvaro de Campos
Não era para ser como foi vestido
Acima de bruços sobre um
Balcão qualquer.
De mulher nem o nome te sei
Ou o rosto fixei fora uns olhos
Escuros e quase cerrados como
A boca dizendo em segredo:
Havia de ser ali e já.
Não sei quem és
Não sei o que és
Sei que ficaste assim:
Um sorriso vago
E despojos de mim.
16-VI-2012
segunda-feira, 25 de junho de 2012
ESTESIA
Caderninho numa mão
A esferográfica na outra
O poema nasce.
20-VI-2012
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sexta-feira, 22 de junho de 2012
quarta-feira, 20 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
ler(n)os outros - 18-VI-2012
A boca é uma novena de silêncios, de Roberta Tostes Daniel
Blá-blá-blá ad infinitum, de Rodrigo Tomé
Dizer de Silêncio e Adoração, de Andrea de Godoy Neto
"Podia ser uma tarde perfeita", de António Geraldo Dias
Blá-blá-blá ad infinitum, de Rodrigo Tomé
Dizer de Silêncio e Adoração, de Andrea de Godoy Neto
"Podia ser uma tarde perfeita", de António Geraldo Dias
segunda-feira, 18 de junho de 2012
COMENTÁRIO A UM POEMA
Nada é mais belo que o seu desabrochar
O seio que a mulher dá
Com ternura aos filhos
Com paixão ao amado
Com tesão aos amantes.
Sugam os filhos
Beija agarra lambe o amado
Apertam trincam batem os amantes
Deixando o peito vermelho de dor e prazer.
E a mulher
Com olhar enlevado para as crias
Com um sorriso cúmplice para o macho
Cega de volúpia com os amantes
Dá-lhes o seio depois
Com o mesmo sorriso
Meigo cúmplice enlevado.
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