sexta-feira, 3 de agosto de 2012

TREMURA

Morta já há tanto tempo
Hoje vi a minha mãe chorar.

2-VIII-2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

OUTRO DIA, UM ACENO


De pé em velha chata
Ao largo um vulto acena
E grita alto como um
Murmúrio mais não permite
O motor e o calor é muito.

«Olá chico!...» atirei.

Trocamos saudações
À tona a memória
Já antiga quando
Críamos eu e o Chico
A vida toda como
Um permanente
Acenar inocente.
1/2-VIII-2012

segunda-feira, 30 de julho de 2012

AUTOBIOGRAFIA autorizada

I

1964-1969 estoril
E cascais o mar
Lenços nas cabeças
Das senhoras carros
Compactos e redondos
Com frisos de metal
Um sol luminoso
A minha pequenez os cães 
Inocência.


II

1970-1979 cascais
E estoril as saias
Das mulheres
Jovens carros esguios
E descapotáveis
Um sol luminoso
Guitarra e voz
Inocência
Primeira visão da morte.


III

1980-1989 estoril
E cascais os corpos
Das raparigas carros
Velhos ferrugem
Um sol luminoso
Os cães a viagem 
Inocência.


IV

1990-1999 estoril
E cascais a minha mulher
Todas as mulheres a vida
O mar os meus livros os meus
Carros a adultês
Um sol luminoso
O desengano.


V

2000-2012 cascais
A morte a vida os carros
Os carros os carros
Um sol luminoso
Os cães
A paz.

ler(n)os outros #8

À mão
Esquece
(ética)
Intuição
Mote para uma folha que caiu, amarela, de uma árvore
Pescadores da Torreira (Cabrita Alta)
Poema Visual -- Ovíparo
Um Dia Parti

sexta-feira, 27 de julho de 2012

COMÉRCIO

Dava-lhe os poemas que escrevia.

Toma dizia fica com eles lê
E ela incauta não sabia
Que trazia água no bico es-
-Se injusto comércio da poesia.
27-VII-2012

quarta-feira, 25 de julho de 2012

INTERIOR EM NICE

Tudo me conduz a nice
O mar
O passeio dos ingleses sobre o mar
A varanda sobre o passeio dos ingleses sobre o mar
Essa portada de ripas verdes entreaberta a recordar
A maresia da infância.

Tudo me leva a nice
E a esse balcão onde
Me aguarda não sei
Se o amor não sei
Se a morte.

Mas tudo me conduz a nice.
23/25-VII-2012




sexta-feira, 20 de julho de 2012

TÁCITO

Ela empina-se em silêncio
Cruzamos o olhar

O rio segue o seu curso.

Antologia Improvável #6 - Artur do Cruzeiro Seixas

Cada poema
cada desenho
são os marinheiros que navegaram na minha cama
são uma revolução não só gritada na rua
são uma flor nascendo nos campos
e é o luar e a sua magia
e é a morte que não me quer
e é UMA MULHER
surpreendente como um marinheiro
luminosa como a palavra REVOLUÇÃO
tão natural como o malmequer
tão metafísica como o luar
tão desejada como a morte hoje
A MINHA MÃE
infinita e profunda
como o mar.

Artur do Cruzeiro Seixas, Obra Poética, vol. I, Vila Nova de Famalicão, 2003.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

EL OTRO LADO

A fronteira do inferno com a terra do leite e do mel
O paraíso entrevisto a expressão alvar
Dos ingénuos.

Mas o medo no cândido sorriso
Ignorante dos mastins à entrada
Do céu.

Arrancam-lhe a carne por um níquel
Descarnado e no cachaço palmadas
Condescendentes.

O espanto da perna amputada
Nos olhos.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

INCÊNDIO

Saboreias a vida foges
Aos compromissos sabes
Que outra não terás vives
Cada dia
             O mais feliz da tua vida.

A impiedade duma sirene diz-
-Te: a vida não é assim.

12-VIII-2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

FALA DO HOMEM FALHADO

Pedes-me palavras
(Só tenho as sílabas do desespero para te dar)
Pedes-me amor
(Nada mais vislumbro senão carne faminta a saciar)

Pedes-me a imortalidade
E eu ergo o muro da descrença de alguma vez te ter.

28-II-2008

quarta-feira, 11 de julho de 2012

CERTIFICADO DE INABILITAÇÕES

A vida é uma comédia
E eu não sei representar.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

RETRATO

A luz própria que se desconhece
O modo aristocrata malgrée elle
A voz suave que não se impõe
O drapejar violeta que oculta as formas
Os olhos meigos atrevendo-se a não mostrar do que são capazes

O seu je ne sais quoi.

ler(n)os outros #5

canta o teu canto mais doce

Crepúsculo dos Instantes

então ele disse que era deus

Íris

Sigilo

Velho amigo

domingo, 8 de julho de 2012

Antologia improvável #2 - Rui Knopfli

ARDE UM FULGOR EXTINTO

Arde um fulgor extinto
no longe da tarde agoniada.
Não me pesaria tanto
a caminhada se, em lugar do dia,
no seu extremo achasse a noite.

Exacta e concisa é a claridade.
Não mente à luz o que a noite
ilude. Terrível destino
o de quem é nocturno à luz solar.

Não vos ponha em cuidado,
porém, este meu penar:

são palavras e não sangram.

Rui Knopfli, Mangas Verdes com Sal (1969) / Obra Poética, Lisboa, 2003.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

«CHAPELARIA» DE AUGUST MACKE (1914)

 Alheada  
Vê as novidades da estação
Pensando no homem distante.

Não o sabe atolado
Nesse mesmo instante
Numa trincheira da flandres. 

Alheado
Vê um capacete francês
E dispara.
5/6-VII-2012