Mostrar mensagens com a etiqueta «da humanidade». Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta «da humanidade». Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

AS PUPILAS DO SENHOR REITOR

(a Liberto Cruz)

Recusas abandonar essas páginas
O estilo dúctil perfeito enganoso
Na aparência os dramas modelados
Pela elegância das frases rejeitas

A fealdade do presente a
Profanação da inocência
Das crianças o aviltamento
Escravo a prostituição dos
Coetâneos o lixo

Não largas o teu júlio dinis

Mas repara bem escava-lhe a prosa
Maviosa a doce prosódia das personagens
E lerás também a nudez forte da verdade
A miséria moral a velhacaria a cupidez.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

EL OTRO LADO

A fronteira do inferno com a terra do leite e do mel
O paraíso entrevisto a expressão alvar
Dos ingénuos.

Mas o medo no cândido sorriso
Ignorante dos mastins à entrada
Do céu.

Arrancam-lhe a carne por um níquel
Descarnado e no cachaço palmadas
Condescendentes.

O espanto da perna amputada
Nos olhos.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

HURRAH!

Os olhos eram inexpressivos mas a matrona tchetchena estava feliz como há muito lhe não sucedia   Encontrara o cadáver do neto   Tinha treze anos e brincava com as irmãs no jardim quando passaram os russos e decidiram cortar pela raiz o embrião de terrorista.

28-VI-2003

quarta-feira, 18 de abril de 2012

UM SOBREVIVENTE DO TARRAFAL

Vejo-o velho
Anarquista digno
E austero casaco
Abotoado sem
Gravata nem
Dentes

Quase pede licença para falar

Chega-me um
Hálito de morte
Com a sua voz
Sumida   não me importa
Tanto o que diz
Nem como o diz
A figura é tudo.
24-V-2003

quarta-feira, 28 de março de 2012

JÚLIO, DO AR


 Do ar júlio engenheiro jovem
Alto poeta pinta a menina que se
Dá ao bácoro burguês não
Faz mal pensa a menina três
Minutos de nojo o olfacto
Não estranha já.

Podia ser minha neta pensa
O burguês sebento bácoro
São três minutos de engano eu
Bácoro e sebento outros serão
Muitos mais foram.

Do ar júlio jovem pintor e
Alto poeta pensa que a miséria
Humana será lavada com tinta
Cor do sangue.

E chora.
5/6-III-2012

Júlio, O Burguês e a Menina
Centro de Arte Moderna, Lisboa

sexta-feira, 9 de março de 2012

RATOS E HOMENS

“But if the while I think on thee, dear friend
All losses are restor'd, and sorrows end.”

Shakespeare


No bosque proibido   romance de mircea eliade   stefan refugiou-se do blitz londrino nas estações do metro.   No bolso levava sempre uma edição dos sonetos de shakespeare   que lia obstinadamente enquanto as bombas caíam.   Os sonnets preservavam-no da ameaça lançada dos céus.   Nessa espécie de esgoto  a poesia fazia a diferença entre ratos e homens.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

IMPERIALISMO DE BOLSO

O rei de espanha que reclama gibraltar visitou ceuta pretendida pelo rei de marrocos que ocupa o saara ocidental antiga colónia espanhola.

6-II-2007

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

EM BAGDADE, TODAS AS MANHÃS

As famílias já não precisam de despedir-se dos pais   todas as manhãs
As famílias deixaram de ter pais   todas as manhãs
As famílias perderam-se das famílias   todas as manhãs de bagdade.

20-III-2007

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O VELHO MILITANTE VÊ O MURO RUIR

E de repente percebeu que tudo aquilo por que lutara havia deixado de ser importante para as pessoas  Perguntava-se até se alguma vez o fora  Chegara a ter a impressão de que se sorriam dele  Surdiu-lhe uma angústia enorme  O peito doía-lhe e comprimia-se  Vivera em vão e isso estava para além do que podia suportar

30-V-2006

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DÍPTICO IRAQUIANO

1. SADDAM HUSSEIN EM CONFERÊNCIA ÍNTIMA

Diz as maiores barbaridades diante duma audiência restrita e escolhida
Fingem sorver as suas palavras   como se de ensinamentos do profeta se           
                                                                                                        [tratasse
(Ou sorvem-nas realmente   decifrando o mistério que reside em cada  
                                                                                                       [tirano)
Saddam perora   sentencia   pára de falar por segundos que parecem
                                                                                                [eternidades
Como que alheio à tragédia que ele próprio é.
                                                                                                                                                                                                         I-2003

2. EMBARQUE

(Os marines rumam ao Golfo Pérsico.
 Vejo, na televisão, um rapazinho
 de sete ou oito anos, agarrado ao pai.)

Vai   despede-te do pai
Vai matar ou morrer no
Deserto.

As lágrimas embaciam-te
Os óculos   e não percebes
Meu pequeno   porque há
Homens maus a afastá-lo
De ti.

America will prevail.

Oh yes   democracy
Como sempre.

Ainda não o sabes   mas
Já o perdeste   pequeno
Mesmo de volta
Virá com a morte
Nos olhos   a morte
Dos que têm o teu
Tamanho   pequeno.
2-VI-2003