Sexta-feira, 16 de Março de 2012

ÚLTIMA HORA

Escrevo
Pois não consigo estancar
O que em mim verte 
Do belo que me fere
Do horrível que me alimenta.

4-I- / 16-III - 2012

Quarta-feira, 14 de Março de 2012

TRAÇOS DO CARÁCTER

Sarcástico.
Irónico...
Sardónico?
Mordástico!

25-X-2007

Segunda-feira, 12 de Março de 2012

SÓ EU SEI

Fechou a porta
Suavemente e
Acendeu a luz.

Só eu sei como não
Sabia o que pensava.

Sexta-feira, 9 de Março de 2012

RATOS E HOMENS

“But if the while I think on thee, dear friend
All losses are restor'd, and sorrows end.”

Shakespeare


No bosque proibido   romance de mircea eliade   stefan refugiou-se do blitz londrino nas estações do metro.   No bolso levava sempre uma edição dos sonetos de shakespeare   que lia obstinadamente enquanto as bombas caíam.   Os sonnets preservavam-no da ameaça lançada dos céus.   Nessa espécie de esgoto  a poesia fazia a diferença entre ratos e homens.

Quarta-feira, 7 de Março de 2012

PARA A AVÓ ZÉ

Lembro-me de como gostava de estar
Debruçado sobre a mesa da cozinha
Vendo a avó a ferver as seringas
Numa velha panela redonda de esmalte.

A mesa era grande de mármore
E ali fazia os deveres da escola
Num caderno quadriculado sujo de enganos
Da aritmética com um n.º 2 mal aparado.

Hoje a avó já não ferve as seringas
Mas desfaz os morangos
em compota
Aroma
que anuncia
Escuras tardes de outono.
Estoril, 23-VI-1985

Segunda-feira, 5 de Março de 2012

NADA


…Mas ele nada tinha para lhe dar
Tocar-lhe era tudo
O que queria.

Fazer com esse nada
Uma porção do tudo.

Sexta-feira, 2 de Março de 2012

MEMÓRIA

Nunca escrever
Lábio a lábio
Ou
Sílaba a sílaba
Nem
Rente ao que quer que seja.

Nunca falar
Das zinias
E
Das tílias
(E agora
Também do hibisco).

Fugir
Do
Levedar
E do
Lêvedo.

Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

IMPERIALISMO DE BOLSO

O rei de espanha que reclama gibraltar visitou ceuta pretendida pelo rei de marrocos que ocupa o saara ocidental antiga colónia espanhola.

6-II-2007

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

HOMEM AO MAR

Ouço os sinos das igrejas
Às horas certas
No vale onde me encontro.

O vento é o meu nevoeiro
O badalar é o mugir do meu farol.

Homem das cidades marítimas
Sinto o cerco dos montes   dos penedos   da floresta.

Sei que há lobos
Javalis escondidos
Cavalos selvagens pastando solitários.

O pio nocturno da coruja
Não me deixa esquecer onde estou.

Domingo, 26 de Fevereiro de 2012