domingo, 23 de dezembro de 2012

DOS RESTOS DE HUMANIDADE

Como sobreviver
À merda que nos sai
Ao peido nauseante?

Beethoven traquejava
Eu sei isso alivia-me
Misericórdia porém

Como esquecê-lo quando
O mesmo chanel passa
Uma e outra vez e entumece?

Como não rir do patriarca
Em massagem de natal
Do pr nos votos de ano bom?

É fodido.
23-XII-2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

PRAIA

Praia.

Quando tudo era possível.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O QUE PASSA

Um sol morno que perfura as nuvens e te aquece
Uns seios que apetece trincar
O cheiro molhado da terra
O cão que te abana a cauda
O encontro no chegar a casa
A ilusão de óptica nas jantes dum carro inglês
Aquela frase que te saltou do livro
O verso que veio ter contigo
Um looping de avioneta no céu de cascais
Um vestido curto de fêmea
Uma bica com café do nabeiro
Um sax que não se sabe de onde vem.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

CHUVA

E havia
Aquelas tardes de 
Outono quando 
chuva aparecia 
Sem avisar a praia 
Convidava ao puro 
Repouso sem outra 
Coisa em mente que 
Não o escorregar da 
Areia por entre os 
Dedos à cadência de 
Cada onda a 
Estatelar-se com
Estrondo.


Ficávamos 
Por ali, indiferentes 
À moinha, gratos 
Pelo que a vida 
Nos dava, sem 
Pedir nada em 
Troca.

Maio 2008

terça-feira, 30 de outubro de 2012

NUM COMENTÁRIO A NINA RIZZI

Mágica Rua dos Douradores, tão audível, tão palpável...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

TARDES

O sol ainda aquecia pelas sete
Das tardes de setembro a praia
Estava por nossa conta e não
Queríamos voltar para casa 
Entrávamos na água com o
Estrondo ecoando no areal vazio.

Soltávamos insultos a nós e
Às nossas mães quebrávamos
Os interditos cheios de inocência.

A vileza vinha longe.

Maio, 2008

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

JORNAL

Ainda estava tudo para acontecer quando lias no diário de lisboa as tiras do tio carlos
As inundações de 67 o sismo de 69 o 25 de abril de 74
A vida já era complicada mas não ligavas grande coisa à vida. 

A vida  continua estranha e dás-lhe pouco cavaco
 te apetece pegar no diário de lisboa que já não existe 
E ir à procura de mais uma aventura do tio carlos.

Maio 2008 /
/ Outubro 2012



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

YOU'RE GOING TO LOSE THAT GIRL

A timidez é uma fraqueza
Da alma a cobardia de ser.

Yes yes you’re going to lose that girl.

domingo, 14 de outubro de 2012

DA PERDA

As mães dão-nos (a)o mundo, e levam uma porção de nós com elas.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

MODO DE SER

À finura   prefiro a raça
À astúcia   a ingenuidade.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

EXORTAÇÃO

Se te detestas   porque não mudas?
 
Se não mudas   porque não acabas?

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

VARANDA

O rio e o porto o mar
Que se abre eu vejo-
-Os da mais alta varanda
Da lapa trafaria em frente painéis
De almada na gare marítima
Adivinhados para lá do corredor
Do rádio a voz de amália "cais
De outrora" podia tudo acabar
Neste agora outrora sem
Futuro e acabava bem.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

SE BOCAGE ME CHEGASSE

Se bocage me chegasse
Pelas bicas diárias
De nicola tanto padre
Tanto frade tanta freira
Tanta puta e josé agostinho
Oh tanta mama e tanto cu
Tanto bufo e poetiso tanta
Tia flausina do recanto
Mais sombrio da costa
Do sol se por bicas diárias
De nicola me chegasse
Bocage.

21-IX-2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

EMIGRANTES (1928)

Com delicadeza apertava o formato
19x12,3 das suas 336 páginas evitando
Apor os polegares sobre a desmaiada
Ilustração a duas cores do stuart era
A primeira edição que tinha em mãos.

Horrorizava-o a bibliofilia os livros melhores
Amigos tratados como vil mercadoria coisa
Diferente era este nos seus mais de 80 anos
Não conhecera o autor mas sabia que tudo
Mudara com ele e para ele mercê destas
336 páginas em formato 19x12,3.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

AS PUPILAS DO SENHOR REITOR

(a Liberto Cruz)

Recusas abandonar essas páginas
O estilo dúctil perfeito enganoso
Na aparência os dramas modelados
Pela elegância das frases rejeitas

A fealdade do presente a
Profanação da inocência
Das crianças o aviltamento
Escravo a prostituição dos
Coetâneos o lixo

Não largas o teu júlio dinis

Mas repara bem escava-lhe a prosa
Maviosa a doce prosódia das personagens
E lerás também a nudez forte da verdade
A miséria moral a velhacaria a cupidez.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

OUTRO DIA, UM ACENO


De pé em velha chata
Ao largo um vulto acena
E grita alto como um
Murmúrio mais não permite
O motor e o calor é muito.

«Olá chico!...» atirei.

Trocamos saudações
À tona a memória
Já antiga quando
Críamos eu e o Chico
A vida toda como
Um permanente
Acenar inocente.
1/2-VIII-2012

segunda-feira, 30 de julho de 2012

AUTOBIOGRAFIA autorizada

I

1964-1969 estoril
E cascais o mar
Lenços nas cabeças
Das senhoras carros
Compactos e redondos
Com frisos de metal
Um sol luminoso
A minha pequenez os cães 
Inocência.


II

1970-1979 cascais
E estoril as saias
Das mulheres
Jovens carros esguios
E descapotáveis
Um sol luminoso
Guitarra e voz
Inocência
Primeira visão da morte.


III

1980-1989 estoril
E cascais os corpos
Das raparigas carros
Velhos ferrugem
Um sol luminoso
Os cães a viagem 
Inocência.


IV

1990-1999 estoril
E cascais a minha mulher
Todas as mulheres a vida
O mar os meus livros os meus
Carros a adultês
Um sol luminoso
O desengano.


V

2000-2012 cascais
A morte a vida os carros
Os carros os carros
Um sol luminoso
Os cães
A paz.

ler(n)os outros #8

À mão
Esquece
(ética)
Intuição
Mote para uma folha que caiu, amarela, de uma árvore
Pescadores da Torreira (Cabrita Alta)
Poema Visual -- Ovíparo
Um Dia Parti

sexta-feira, 27 de julho de 2012

COMÉRCIO

Dava-lhe os poemas que escrevia.

Toma dizia fica com eles lê
E ela incauta não sabia
Que trazia água no bico es-
-Se injusto comércio da poesia.
27-VII-2012

quarta-feira, 25 de julho de 2012

INTERIOR EM NICE

Tudo me conduz a nice
O mar
O passeio dos ingleses sobre o mar
A varanda sobre o passeio dos ingleses sobre o mar
Essa portada de ripas verdes entreaberta a recordar
A maresia da infância.

Tudo me leva a nice
E a esse balcão onde
Me aguarda não sei
Se o amor não sei
Se a morte.

Mas tudo me conduz a nice.
23/25-VII-2012




sexta-feira, 20 de julho de 2012

TÁCITO

Ela empina-se em silêncio
Cruzamos o olhar

O rio segue o seu curso.

Antologia Improvável #6 - Artur do Cruzeiro Seixas

Cada poema
cada desenho
são os marinheiros que navegaram na minha cama
são uma revolução não só gritada na rua
são uma flor nascendo nos campos
e é o luar e a sua magia
e é a morte que não me quer
e é UMA MULHER
surpreendente como um marinheiro
luminosa como a palavra REVOLUÇÃO
tão natural como o malmequer
tão metafísica como o luar
tão desejada como a morte hoje
A MINHA MÃE
infinita e profunda
como o mar.

Artur do Cruzeiro Seixas, Obra Poética, vol. I, Vila Nova de Famalicão, 2003.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

EL OTRO LADO

A fronteira do inferno com a terra do leite e do mel
O paraíso entrevisto a expressão alvar
Dos ingénuos.

Mas o medo no cândido sorriso
Ignorante dos mastins à entrada
Do céu.

Arrancam-lhe a carne por um níquel
Descarnado e no cachaço palmadas
Condescendentes.

O espanto da perna amputada
Nos olhos.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

INCÊNDIO

Saboreias a vida foges
Aos compromissos sabes
Que outra não terás vives
Cada dia
             O mais feliz da tua vida.

A impiedade duma sirene diz-
-Te: a vida não é assim.

12-VIII-2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

FALA DO HOMEM FALHADO

Pedes-me palavras
(Só tenho as sílabas do desespero para te dar)
Pedes-me amor
(Nada mais vislumbro senão carne faminta a saciar)

Pedes-me a imortalidade
E eu ergo o muro da descrença de alguma vez te ter.

28-II-2008

quarta-feira, 11 de julho de 2012

CERTIFICADO DE INABILITAÇÕES

A vida é uma comédia
E eu não sei representar.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

RETRATO

A luz própria que se desconhece
O modo aristocrata malgrée elle
A voz suave que não se impõe
O drapejar violeta que oculta as formas
Os olhos meigos atrevendo-se a não mostrar do que são capazes

O seu je ne sais quoi.

ler(n)os outros #5

canta o teu canto mais doce

Crepúsculo dos Instantes

então ele disse que era deus

Íris

Sigilo

Velho amigo

domingo, 8 de julho de 2012

Antologia improvável #2 - Rui Knopfli

ARDE UM FULGOR EXTINTO

Arde um fulgor extinto
no longe da tarde agoniada.
Não me pesaria tanto
a caminhada se, em lugar do dia,
no seu extremo achasse a noite.

Exacta e concisa é a claridade.
Não mente à luz o que a noite
ilude. Terrível destino
o de quem é nocturno à luz solar.

Não vos ponha em cuidado,
porém, este meu penar:

são palavras e não sangram.

Rui Knopfli, Mangas Verdes com Sal (1969) / Obra Poética, Lisboa, 2003.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

«CHAPELARIA» DE AUGUST MACKE (1914)

 Alheada  
Vê as novidades da estação
Pensando no homem distante.

Não o sabe atolado
Nesse mesmo instante
Numa trincheira da flandres. 

Alheado
Vê um capacete francês
E dispara.
5/6-VII-2012


segunda-feira, 2 de julho de 2012

FIM DE TARDE

Pássaros em bando a quem tivessem aberto as gaiolas
Frescas como a aragem que corre após um dia de trabalho
As lojistas passam em silêncio entrando
No fim de tarde de junho com os sacos
Cheios da tralha que só as mulheres usam
Algumas de óculos escuros outras
Cara a descoberto e cabelo apanhado
Vestidos de alças
Ombros nus que apetece beijar.

E eu
Vendo o desfile destas jovens mulheres
Chego a pensar que a vida é bela
Esquecendo por momentos os salários curtos
O horizonte estreito das suas existências
O futuro sem brilho que as espera.

Nada disso tem importância neste fim de tarde quente de junho
Soprando uma aragem que atinge em cheio rostos inexpressivamente belos
Tocados pela luz quase rasante de um sol-pôr
Por entre as frestas de casas muito velhas
Marcadas pelo verdete do inverno

Sintra, 27-VI-2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

CRUZAMENTO





Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite
Álvaro de Campos


Não era para ser como foi   vestido
Acima   de bruços sobre um 
Balcão qualquer.

De mulher nem o nome te sei
Ou o rosto fixei fora uns olhos
Escuros e quase cerrados como
A boca   dizendo em segredo:
Havia de ser ali e já.

Não sei quem és
Não sei o que és
Sei que ficaste assim:
Um sorriso vago  
E despojos de mim.

16-VI-2012

ler(n)os outros #3


Invenção
Trovas
Virtude

segunda-feira, 25 de junho de 2012

ESTESIA

Caderninho numa mão
A esferográfica na outra

O poema nasce.

20-VI-2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

segunda-feira, 18 de junho de 2012

COMENTÁRIO A UM POEMA


Nada é mais belo que o seu desabrochar
O seio que a mulher dá
Com ternura   aos filhos
Com paixão   ao amado
Com tesão    aos amantes.

Sugam os filhos
Beija agarra  lambe o amado
Apertam trincam  batem os amantes
Deixando o peito vermelho de dor e prazer.

E a mulher
Com olhar enlevado  para as crias
Com um sorriso cúmplice para o macho
Cega de volúpia com os amantes
Dá-lhes o seio depois
Com o mesmo sorriso
Meigo   cúmplice   enlevado.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

RORY GALLAGHER: FOLLOW ME

A voz
Grave   quase gutural
Amacia cada riff
Dedilhado com nervo
Como se a vida se esvaísse
Das cordas daquela fender.

Puro malte irlandês.




sexta-feira, 8 de junho de 2012

ROB ROY

Tudo se passou num segundo  quando o juiz-de-fora saiu da estalagem da clareira  na floresta   Nem pudemos estranhar a inquietação das montadas   Das highlands desceram os malditos jacobitas  ululando  cobertos com os tartans coloridos de cada tribo   Só eu  escrevente dos autos  escapei com vida   Poupou-me o que parecia ser o chefe  para que pudesse espalhar a mensagem em londres   «lembrem-se de culloden!»

quarta-feira, 6 de junho de 2012

MAGISTÉRIO

Oiço em haydn o seu discípulo beethoven.

Nitidamente.





Franz Josef Haydn, «Adagio - Allegro» da Sinfonia #104
Mozarteum Orchester Salzburg, Hubert Soudant

domingo, 3 de junho de 2012

A VIDA

Nos braços tivera
A mulher da sua vida
A mesma vida
Que lhe tirou dos braços
A mulher da sua vida.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

RETIRANTES

A miséria  
            A beleza  
                       A tragédia.















(Portinari,Retirantes, 1944
Museu de Arte de São Paulo, Assis Chateaubriand).

segunda-feira, 21 de maio de 2012

PRECE

Chegar ao próximo natal é
                                   Desde criança
                                                   O pedido que sempre faço ao deus em que não creio.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

OUVINDO WAYNE SHORTER, DE PÉ

O Parque rebenta pelas costuras.

Alegría.

De joelhos e de cócoras
As fotógrafas procuram ângulo.

Alegría.

Wayne despeja notas
Ar de executivo em férias.

Alegría.

Engasgado o soprano
A secção rítmica arranca-
Nos inesperadas flexões
De joelhos  de joelhos
As fotógrafas continuam
À procura do melhor ângulo.

Alegría.

O tempo estava incerto
Chuva no final do concerto.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

POEMA SEM MERCADO

Todas as palavras que aqui escrevo
Têm uma dignidade que não se sujeita
Ao comércio que rejeito e rejeitas
Não se vendem não se compram
Não se trocam por nada.

Toma-as pelo que são
Maus versos talvez
De súplica e exaltação
Uma dádiva da privação
Mas não te esqueças nunca
Cada palavra aspira à suprema
Qualidade de ser o que é
Inteira e livre
Como tu.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

segunda-feira, 7 de maio de 2012

ESTE DIA

Primeira página governo estuda fim da cobrança de
cinquenta euros nos atestados de deficiência presidente
Da sérvia diz que é preciso "desbalcanizar" os balcãs
Contragolpe do chelsea trava ambição do benfica

Destaque revisão do código laboral entre o silêncio do
Ps e os protestos da cgtp portugal portugal entre os dez
Países da europa com maior consumo de álcool economia
Bruxelas pressiona espanha a usar fundo de resgate

Para salvar bancos mundo papa evoca a liberdade
E os presos nos primeiros discursos em cuba ciência
Mocho-d'orelhas da madeira extinguiu-se com a chegada
 Dos primeiros seres humanos imobiliário restrições

No acesso ao crédito fazem famílias optar pelo arrendamento
Cultura marginal exigente erudita morreu a coreógrafa
Que inaugurou a história local o merceeiro do bairro
Já não é o sr. antónio agora chama-se mohammed

Classificados isa venha receber um toque das mãos de fada
Relax e massag sensuais e prostáticas pessoas mike tyson conta
A sua vida em palco desporto pouca sorte


II

Governo dá sinal de cedência nas propostas
sobre a reorganização do território passos quer
Ligar sines a espanha até dois mil e catorze pyongyang
Confirma lançamento de satélite cientistas portugueses criam

Repelente de mosquitos activado pela luz do sol candidatura
Do cante alentejano à unesco deverá ser adiada porto foi eleito
O melhor destino europeu dois mil e doze edital alteração
Da resolução de expropriar da parcela 12-A necessária 

À execução dos acessos ao novo hospital de loures família
De eastwood em reality show na tv spoel ainda resistiu
Setenta minutos em madrid vai cumprir-se calendário deputado
Expulso da assembleia da madeira regime de assad aceita


Plano de annan mas no terreno os combates continuam
Ou os ataques param ou os árbitros deixam de apitar a
Única livraria de poesia em portugal fechou
Ontem ministro recebido com protestos contra a fome e

A miséria ren avança com negociações para novos projectos
Na china ex-músico da legião urbana vive na rua há quase
300 mil desempregados sem subsídio neste dia

Este dia
Todos os dias.



28-III-2012
(fonte: Público)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

SPINNING-JENNY

Dentro da casa coberta de colmo  a panela ao lume a exalar o aroma da farinheira  o artífice trabalhava ao lado do filho varão  Por entre as portas semicerradas da sala-oficina via chegar os bufarinheiros com as matérias-primas precisas às manufacturas  Um dia veio um homem de pêra e risco ao meio à frente de muitos operários  Açulados pelo capataz ergueram um grande edifício que lhe disseram ser uma fábrica  No interior pontificava um grande relógio  A lareira da sala-oficina na casa coberta de colmo deixou então de aquecer o almoço  agora acomodado entre as paredes estreitas de uma marmita.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

REDUNDANTE

Viena                        d'Áustria

Veneza                      d'Áustria
Viana                         d'Áustria
Viana do Castelo         d'Áustria

segunda-feira, 30 de abril de 2012

PINHEIROS

Pinheiro devastado
Arrancado à infância
Arrancada às raízes.

Pinheiros
Minhas árvores
Arrancadas à devastada
Infância em flor.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

MUNDO DE AVENTURAS


Uma pequena aldeia na planície arménia
Nevoeiro matinal no porto de dieppe
O silvar agudo no cimo dos cárpatos
Um castelo solitário num lago escocês

Um junco chinês no mar do japão
Um trilho de camelos na rota da seda
Um catre vazio no mosteiro da arrábida
Uma via romana na serra do gerês

Uma mesa de cozinha e odores de outono
Um eucaliptal onde brinco com o avô
O último número da revista tão esperada
Despojos da infância que se me acabou.

                                                                                           
21 de Março de 2001

segunda-feira, 23 de abril de 2012

HURRAH!

Os olhos eram inexpressivos mas a matrona tchetchena estava feliz como há muito lhe não sucedia   Encontrara o cadáver do neto   Tinha treze anos e brincava com as irmãs no jardim quando passaram os russos e decidiram cortar pela raiz o embrião de terrorista.

28-VI-2003

sexta-feira, 20 de abril de 2012

FRANJA

A franja esconde
Te os olhos grandes
O vestido justo molda
Te as coxas exuberantes
Tão descaradas como
Os teus grandes olhos
Escondidos pela franja.

VI-2003

quarta-feira, 18 de abril de 2012

UM SOBREVIVENTE DO TARRAFAL

Vejo-o velho
Anarquista digno
E austero casaco
Abotoado sem
Gravata nem
Dentes

Quase pede licença para falar

Chega-me um
Hálito de morte
Com a sua voz
Sumida   não me importa
Tanto o que diz
Nem como o diz
A figura é tudo.
24-V-2003

segunda-feira, 16 de abril de 2012

SOL DE JUNHO

O sol de Junho irradia
Sem extinguir-se a moinha
A chover-nos dentro.

Somos atravessados pela melancolia
Choro intenso de lágrimas secas.

Trazemos em nós o próprio feto
Que continuamente violentamos.

VI-2001

sexta-feira, 13 de abril de 2012

RECORRÊNCIA

O pássaro na mão
E eu a pô-lo a voar.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

PERSEGUIÇÃO

Se te distraíste quando falavas e as palavras resvalaram
Se deixaste ferver em demasia a água para o chá
Se um frémito te invade o centro do corpo e sobe até o esmagares com os lábios
Fui eu que passei por baixo da tua janela para estar mais próximo
Fui eu que rondei a tua casa na esperança de te ver à porta.

Eu 
Que me recuso a largar-te e não te deixo em paz.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

NUM DEPÓSITO

[Hemeroteca de Lisboa]

Volumes e volumes de jornais encadernados.

O tudo que é nada.

sexta-feira, 30 de março de 2012

MESSAGE IN A BOTTLE

Deixa-lhe bilhetes para a eternidade
Certo de que só no corpo se alcança a ventura.

quarta-feira, 28 de março de 2012

JÚLIO, DO AR


 Do ar júlio engenheiro jovem
Alto poeta pinta a menina que se
Dá ao bácoro burguês não
Faz mal pensa a menina três
Minutos de nojo o olfacto
Não estranha já.

Podia ser minha neta pensa
O burguês sebento bácoro
São três minutos de engano eu
Bácoro e sebento outros serão
Muitos mais foram.

Do ar júlio jovem pintor e
Alto poeta pensa que a miséria
Humana será lavada com tinta
Cor do sangue.

E chora.
5/6-III-2012

Júlio, O Burguês e a Menina
Centro de Arte Moderna, Lisboa

domingo, 25 de março de 2012

HUMANIDADE

                                                    (Depois de ouvir My Bucket Got's A Hole In It.)

A doçura daquela
Voz a tristeza daqueles
Olhos o calor da
Trompete de
Armstrong o segregado
Desmentindo o ódio.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      7-VI-2005


sexta-feira, 23 de março de 2012

O IMPOSTOR CAI EM SI, E SUPLICA

Agora que me trato por tu
E se desfez a pose fingida
Do sedutor   considera a
Pele na pele a boca na
Boca   as mãos por todo
O lado   permite conceder-
Nos uma fracção de ternura
Uma fracção de (e com isto
Liquido já o poema) tremura.

quarta-feira, 21 de março de 2012

FOLHA

Não a queria
Vergada ou
Quebrada antes
Folha soltando
Se e caindo
Inexorável
               m
               e
               n
               t
               e
Sobre
Si.

segunda-feira, 19 de março de 2012

RÉPLICA

Eras nesse casamento a imodéstia do vestir
Simples de todos os dias.

Divergias das fêmeas ciosas na igreja
Opulentando de transparência os vestidos
Decotes pelo peito abaixo saltos agulha
Em velado convite à cobrição.

E eras em tudo mais que elas   
Em mérito em cérebro em desejo
Ardente que uma natural reserva
Não conseguia comigo conter-se.

Quase nada era preciso
Para cairmos um no outro.

Mas não sabes ou saberás
Pois isto nunca verás    
Que não eras tu quem eu queria
Pequena árabe
(Ou israelita)
Há séculos convertida  
Retrato da que há anos me agrilhoa.

Tivéssemo-nos tido doce judia
(Ou agarena)   
E seria em outra mulher que eu julgaria estar
O original de ti réplica
Involuntária e imerecida
Na minha cabeça desaustinada.

A que tarde ou cedo lerá estes versos   
Sabendo que é dela que falo e me consome
E se consome pelo medo de se deixar amar.

13-III-2012