A boca é uma novena de silêncios, de Roberta Tostes Daniel
Blá-blá-blá ad infinitum, de Rodrigo Tomé
Dizer de Silêncio e Adoração, de Andrea de Godoy Neto
"Podia ser uma tarde perfeita", de António Geraldo Dias
terça-feira, 19 de junho de 2012
segunda-feira, 18 de junho de 2012
COMENTÁRIO A UM POEMA
Nada é mais belo que o seu desabrochar
O seio que a mulher dá
Com ternura aos filhos
Com paixão ao amado
Com tesão aos amantes.
Sugam os filhos
Beija agarra lambe o amado
Apertam trincam batem os amantes
Deixando o peito vermelho de dor e prazer.
E a mulher
Com olhar enlevado para as crias
Com um sorriso cúmplice para o macho
Cega de volúpia com os amantes
Dá-lhes o seio depois
Com o mesmo sorriso
Meigo cúmplice enlevado.
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sexta-feira, 15 de junho de 2012
RORY GALLAGHER: FOLLOW ME
A voz
Grave quase gutural
Amacia cada riff
Dedilhado com nervo
Como se a vida se esvaísse
Das cordas daquela fender.
Puro malte irlandês.
Grave quase gutural
Amacia cada riff
Dedilhado com nervo
Como se a vida se esvaísse
Das cordas daquela fender.
Puro malte irlandês.
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Rory Gallagher
sexta-feira, 8 de junho de 2012
ROB ROY
Tudo se passou num segundo quando o juiz-de-fora saiu da estalagem da clareira na floresta Nem pudemos estranhar a inquietação das montadas Das highlands desceram os malditos jacobitas ululando cobertos com os tartans coloridos de cada tribo Só eu escrevente dos autos escapei com vida Poupou-me o que parecia ser o chefe para que pudesse espalhar a mensagem em londres «lembrem-se de culloden!»
quarta-feira, 6 de junho de 2012
MAGISTÉRIO
Oiço em haydn o seu discípulo beethoven.
Nitidamente.
Franz Josef Haydn, «Adagio - Allegro» da Sinfonia #104
Mozarteum Orchester Salzburg, Hubert Soudant
domingo, 3 de junho de 2012
A VIDA
Nos braços tivera
A mulher da sua vida
A mesma vida
Que lhe tirou dos braços
A mulher da sua vida.
A mulher da sua vida
A mesma vida
Que lhe tirou dos braços
A mulher da sua vida.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
RETIRANTES
A miséria
A beleza
A tragédia.
(Portinari,Retirantes, 1944
Museu de Arte de São Paulo, Assis Chateaubriand).
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Candido Portinari
segunda-feira, 21 de maio de 2012
PRECE
Chegar ao próximo natal é
Desde criança
O pedido que sempre faço ao deus em que não creio.
Desde criança
O pedido que sempre faço ao deus em que não creio.
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sexta-feira, 18 de maio de 2012
OUVINDO WAYNE SHORTER, DE PÉ
O Parque rebenta pelas costuras.
Alegría.
De joelhos e de cócoras
As fotógrafas procuram ângulo.
Alegría.
Wayne despeja notas
Ar de executivo em férias.
Alegría.
Engasgado o soprano
A secção rítmica arranca-
Nos inesperadas flexões
De joelhos de joelhos
As fotógrafas continuam
À procura do melhor ângulo.
Alegría.
O tempo estava incerto
Chuva no final do concerto.
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Wayne Shorter
quarta-feira, 16 de maio de 2012
POEMA SEM MERCADO
Todas as palavras que aqui escrevo
Têm uma dignidade que não se sujeita
Ao comércio que rejeito e rejeitas
Não se vendem não se compram
Não se trocam por nada.
Toma-as pelo que são
Maus versos talvez
De súplica e exaltação
Uma dádiva da privação
Mas não te esqueças nunca
Cada palavra aspira à suprema
Qualidade de ser o que é
Inteira e livre
Como tu.
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segunda-feira, 14 de maio de 2012
segunda-feira, 7 de maio de 2012
ESTE DIA
Primeira página governo estuda fim da cobrança de
cinquenta euros nos atestados de deficiência presidente
Da sérvia diz que é preciso "desbalcanizar" os balcãs
Contragolpe do chelsea trava ambição do benfica
Destaque revisão do código laboral entre o silêncio do
Ps e os protestos da cgtp portugal portugal entre os dez
Países da europa com maior consumo de álcool economia
Bruxelas pressiona espanha a usar fundo de resgate
Para salvar bancos mundo papa evoca a liberdade
E os presos nos primeiros discursos em cuba ciência
Mocho-d'orelhas da madeira extinguiu-se com a chegada
Dos primeiros seres humanos imobiliário restrições
No acesso ao crédito fazem famílias optar pelo arrendamento
Cultura marginal exigente erudita morreu a coreógrafa
Que inaugurou a história local o merceeiro do bairro
Já não é o sr. antónio agora chama-se mohammed
Classificados isa venha receber um toque das mãos de fada
Relax e massag sensuais e prostáticas pessoas mike tyson conta
A sua vida em palco desporto pouca sorte
II
Governo dá sinal de cedência nas propostas
sobre a reorganização do território passos quer
Ligar sines a espanha até dois mil e catorze pyongyang
Confirma lançamento de satélite cientistas portugueses criam
Repelente de mosquitos activado pela luz do sol candidatura
Do cante alentejano à unesco deverá ser adiada porto foi eleito
O melhor destino europeu dois mil e doze edital alteração
Da resolução de expropriar da parcela 12-A necessária
À execução dos acessos ao novo hospital de loures família
De eastwood em reality show na tv spoel ainda resistiu
Setenta minutos em madrid vai cumprir-se calendário deputado
Expulso da assembleia da madeira regime de assad aceita
Plano de annan mas no terreno os combates continuam
Ou os ataques param ou os árbitros deixam de apitar a
Única livraria de poesia em portugal fechou
Ontem ministro recebido com protestos contra a fome e
A miséria ren avança com negociações para novos projectos
Na china ex-músico da legião urbana vive na rua há quase
300 mil desempregados sem subsídio neste dia
Este dia
Todos os dias.
cinquenta euros nos atestados de deficiência presidente
Da sérvia diz que é preciso "desbalcanizar" os balcãs
Contragolpe do chelsea trava ambição do benfica
Destaque revisão do código laboral entre o silêncio do
Ps e os protestos da cgtp portugal portugal entre os dez
Países da europa com maior consumo de álcool economia
Bruxelas pressiona espanha a usar fundo de resgate
Para salvar bancos mundo papa evoca a liberdade
E os presos nos primeiros discursos em cuba ciência
Mocho-d'orelhas da madeira extinguiu-se com a chegada
Dos primeiros seres humanos imobiliário restrições
No acesso ao crédito fazem famílias optar pelo arrendamento
Cultura marginal exigente erudita morreu a coreógrafa
Que inaugurou a história local o merceeiro do bairro
Já não é o sr. antónio agora chama-se mohammed
Classificados isa venha receber um toque das mãos de fada
Relax e massag sensuais e prostáticas pessoas mike tyson conta
A sua vida em palco desporto pouca sorte
II
Governo dá sinal de cedência nas propostas
sobre a reorganização do território passos quer
Ligar sines a espanha até dois mil e catorze pyongyang
Confirma lançamento de satélite cientistas portugueses criam
Repelente de mosquitos activado pela luz do sol candidatura
Do cante alentejano à unesco deverá ser adiada porto foi eleito
O melhor destino europeu dois mil e doze edital alteração
Da resolução de expropriar da parcela 12-A necessária
À execução dos acessos ao novo hospital de loures família
De eastwood em reality show na tv spoel ainda resistiu
Setenta minutos em madrid vai cumprir-se calendário deputado
Expulso da assembleia da madeira regime de assad aceita
Plano de annan mas no terreno os combates continuam
Ou os ataques param ou os árbitros deixam de apitar a
Única livraria de poesia em portugal fechou
Ontem ministro recebido com protestos contra a fome e
A miséria ren avança com negociações para novos projectos
Na china ex-músico da legião urbana vive na rua há quase
300 mil desempregados sem subsídio neste dia
Este dia
Todos os dias.
28-III-2012
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sem assunto
sexta-feira, 4 de maio de 2012
SPINNING-JENNY
Dentro da casa coberta de colmo a panela ao lume a exalar o aroma da farinheira o artífice trabalhava ao lado do filho varão Por entre as portas semicerradas da sala-oficina via chegar os bufarinheiros com as matérias-primas precisas às manufacturas Um dia veio um homem de pêra e risco ao meio à frente de muitos operários Açulados pelo capataz ergueram um grande edifício que lhe disseram ser uma fábrica No interior pontificava um grande relógio A lareira da sala-oficina na casa coberta de colmo deixou então de aquecer o almoço agora acomodado entre as paredes estreitas de uma marmita.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
segunda-feira, 30 de abril de 2012
PINHEIROS
Pinheiro devastado
Arrancado à infância
Arrancada às raízes.
Pinheiros
Minhas árvores
Arrancadas à devastada
Infância em flor.
Arrancado à infância
Arrancada às raízes.
Pinheiros
Minhas árvores
Arrancadas à devastada
Infância em flor.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
MUNDO DE AVENTURAS
Uma pequena aldeia na planície arménia
Nevoeiro matinal no porto de dieppe
O silvar agudo no cimo dos cárpatos
Um castelo solitário num lago escocês
Um junco chinês no mar do japão
Um trilho de camelos na rota da seda
Um catre vazio no mosteiro da arrábida
Uma via romana na serra do gerês
Uma mesa de cozinha e odores de outono
Um eucaliptal onde brinco com o avô
O último número da revista tão esperada
Despojos da infância que se me acabou.
21 de Março de 2001
Nevoeiro matinal no porto de dieppe
O silvar agudo no cimo dos cárpatos
Um castelo solitário num lago escocês
Um junco chinês no mar do japão
Um trilho de camelos na rota da seda
Um catre vazio no mosteiro da arrábida
Uma via romana na serra do gerês
Uma mesa de cozinha e odores de outono
Um eucaliptal onde brinco com o avô
O último número da revista tão esperada
Despojos da infância que se me acabou.
21 de Março de 2001
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segunda-feira, 23 de abril de 2012
HURRAH!
Os olhos eram inexpressivos mas a matrona tchetchena estava feliz como há muito lhe não sucedia Encontrara o cadáver do neto Tinha treze anos e brincava com as irmãs no jardim quando passaram os russos e decidiram cortar pela raiz o embrião de terrorista.
28-VI-2003
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sexta-feira, 20 de abril de 2012
FRANJA
A franja esconde
Te os olhos grandes
O vestido justo molda
Te as coxas exuberantes
Tão descaradas como
Os teus grandes olhos
Escondidos pela franja.
Te os olhos grandes
O vestido justo molda
Te as coxas exuberantes
Tão descaradas como
Os teus grandes olhos
Escondidos pela franja.
VI-2003
quarta-feira, 18 de abril de 2012
UM SOBREVIVENTE DO TARRAFAL
Vejo-o velho
Anarquista digno
E austero casaco
Abotoado sem
Gravata nem
Dentes
Quase pede licença para falar
Chega-me um
Hálito de morte
Com a sua voz
Sumida não me importa
Tanto o que diz
Nem como o diz
Anarquista digno
E austero casaco
Abotoado sem
Gravata nem
Dentes
Quase pede licença para falar
Chega-me um
Hálito de morte
Com a sua voz
Sumida não me importa
Tanto o que diz
Nem como o diz
A figura é tudo.
24-V-2003
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segunda-feira, 16 de abril de 2012
SOL DE JUNHO
O sol de Junho irradia
Sem extinguir-se a moinha
A chover-nos dentro.
Somos atravessados pela melancolia
Choro intenso de lágrimas secas.
Trazemos em nós o próprio feto
Que continuamente violentamos.
Sem extinguir-se a moinha
A chover-nos dentro.
Somos atravessados pela melancolia
Choro intenso de lágrimas secas.
Trazemos em nós o próprio feto
Que continuamente violentamos.
VI-2001
sexta-feira, 13 de abril de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
PERSEGUIÇÃO
Se te distraíste quando falavas e as palavras resvalaram
Se deixaste ferver em demasia a água para o chá
Se um frémito te invade o centro do corpo e sobe até o esmagares com os lábios
Fui eu que passei por baixo da tua janela para estar mais próximo
Fui eu que rondei a tua casa na esperança de te ver à porta.
Eu
Que me recuso a largar-te e não te deixo em paz.
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segunda-feira, 9 de abril de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
MESSAGE IN A BOTTLE
Deixa-lhe bilhetes para a eternidade
Certo de que só no corpo se alcança a ventura.
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quarta-feira, 28 de março de 2012
JÚLIO, DO AR
Do ar júlio engenheiro jovem
Alto poeta pinta a menina que se
Dá ao bácoro burguês não
Faz mal pensa a menina três
Minutos de nojo o olfacto
Não estranha já.
Podia ser minha neta pensa
O burguês sebento bácoro
São três minutos de engano eu
Bácoro e sebento outros serão
Muitos mais foram.
Do ar júlio jovem pintor e
Alto poeta pensa que a miséria
Humana será lavada com tinta
Cor do sangue.
E chora.
5/6-III-2012
Júlio, O Burguês e a Menina
Centro de Arte Moderna, Lisboa
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Júlio,
Saul Dias
domingo, 25 de março de 2012
HUMANIDADE
(Depois de ouvir My Bucket Got's A Hole In It.)
A doçura daquela
Voz a tristeza daqueles
Olhos o calor da
Trompete de
Armstrong o segregado
Desmentindo o ódio.
7-VI-2005
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Louis Armstrong,
o silêncio
sexta-feira, 23 de março de 2012
O IMPOSTOR CAI EM SI, E SUPLICA
Agora que me trato por tu
E se desfez a pose fingida
Do sedutor considera a
Pele na pele a boca na
Boca as mãos por todo
O lado permite conceder-
Nos uma fracção de ternura
Uma fracção de (e com isto
Liquido já o poema) tremura.
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quarta-feira, 21 de março de 2012
FOLHA
Não a queria
Vergada ou
Quebrada antes
Folha soltando
Se e caindo
Inexorável
m
e
n
t
e
Sobre
Si.
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segunda-feira, 19 de março de 2012
RÉPLICA
Eras nesse casamento a imodéstia do vestir
Simples de todos os dias.
Simples de todos os dias.
Divergias das fêmeas ciosas na igreja
Opulentando de transparência os vestidos
Decotes pelo peito abaixo saltos agulha
Em velado convite à cobrição.
E eras em tudo mais que elas
Em mérito em cérebro em desejo
Ardente que uma natural reserva
Não conseguia comigo conter-se.
Quase nada era preciso
Para cairmos um no outro.
Mas não sabes ou saberás
Pois isto nunca verás
Que não eras tu quem eu queria
Pequena árabe
(Ou israelita)
Há séculos convertida
Retrato da que há anos me agrilhoa.
Tivéssemo-nos tido doce judia
(Ou agarena)
E seria em outra mulher que eu julgaria estar
O original de ti réplica
Involuntária e imerecida
Na minha cabeça desaustinada.
A que tarde ou cedo lerá estes versos
Sabendo que é dela que falo e me consome
E se consome pelo medo de se deixar amar.
13-III-2012
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sexta-feira, 16 de março de 2012
ÚLTIMA HORA
Escrevo
Pois não consigo estancar
O que em mim verte
Do belo que me fere
Do horrível que me alimenta.
4-I- / 16-III - 2012
quarta-feira, 14 de março de 2012
segunda-feira, 12 de março de 2012
sexta-feira, 9 de março de 2012
RATOS E HOMENS
“But if the while I think on thee, dear friend
All losses are restor'd, and sorrows end.”
Shakespeare
No bosque proibido romance de mircea eliade stefan refugiou-se do blitz londrino nas estações do metro. No bolso levava sempre uma edição dos sonetos de shakespeare que lia obstinadamente enquanto as bombas caíam. Os sonnets preservavam-no da ameaça lançada dos céus. Nessa espécie de esgoto a poesia fazia a diferença entre ratos e homens.
quarta-feira, 7 de março de 2012
PARA A AVÓ ZÉ
Lembro-me de como gostava de estar
Debruçado sobre a mesa da cozinha
Vendo a avó a ferver as seringas
Numa velha panela redonda de esmalte.
A mesa era grande de mármore
E ali fazia os deveres da escola
Num caderno quadriculado sujo de enganos
Da aritmética com um n.º 2 mal aparado.
Debruçado sobre a mesa da cozinha
Vendo a avó a ferver as seringas
Numa velha panela redonda de esmalte.
A mesa era grande de mármore
E ali fazia os deveres da escola
Num caderno quadriculado sujo de enganos
Da aritmética com um n.º 2 mal aparado.
Hoje a avó já não ferve as seringas
Mas desfaz os morangosem compota
Aroma que anuncia
Escuras tardes de outono.
Mas desfaz os morangos
Aroma
Escuras tardes de outono.
Estoril, 23-VI-1985
segunda-feira, 5 de março de 2012
NADA
…Mas ele nada tinha para lhe dar
Tocar-lhe era tudo
O que queria.
Fazer com esse nada
Uma porção do tudo.
sexta-feira, 2 de março de 2012
MEMÓRIA
Nunca escrever
Lábio a lábio
Ou
Sílaba a sílaba
Nem
Rente ao que quer que seja.
Nunca falar
Das zinias
E
Das tílias
(E agora
Também do hibisco).
Fugir
Do
Levedar
E do
Lêvedo.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
IMPERIALISMO DE BOLSO
O rei de espanha que reclama gibraltar visitou ceuta pretendida pelo rei de marrocos que ocupa o saara ocidental antiga colónia espanhola.
6-II-2007
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
HOMEM AO MAR
Ouço os sinos das igrejas
Às horas certas
Às horas certas
No vale onde me encontro.
O vento é o meu nevoeiro
O badalar é o mugir do meu farol.
Homem das cidades marítimas
Sinto o cerco dos montes dos penedos da floresta.
O vento é o meu nevoeiro
O badalar é o mugir do meu farol.
Homem das cidades marítimas
Sinto o cerco dos montes dos penedos da floresta.
Sei que há lobos
Javalis escondidos
Cavalos selvagens pastando solitários.
O pio nocturno da coruja
Não me deixa esquecer onde estou.
Javalis escondidos
Cavalos selvagens pastando solitários.
O pio nocturno da coruja
Não me deixa esquecer onde estou.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
A MÁSCARA
O riso
A mofa
O escárnio
Para que se não repare neste pobre
Mamífero à mercê do acaso
A lisonja por seguro de vida
O desdém em fuga ao compromisso
O urro que apavora em confronto.
Ergo-me deste inferno
Burlão
Gatuno
Assassino se mo permitirem
Ergo-me consternado deste inferno em que vivo.
Que retrato é o meu?
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James Ensor
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
VERDE (CORES & NOMES)
O minho é verde cumeadas de verde mesmo quando se nos mostram escalavradas no gerês.
Digo minho e penso em camilo.
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Camilo Castelo Branco,
estesias
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
ETERNIDADE
É tarde
Andei à procura
Da tal eternidade
E não a encontrei.
Ainda não é tarde
Falta-me um guia
Para a eternidade
Que desconheço.
A tal eternidade que
Está em nós em
Mim em ti nos
Dois nós dois num
Instante da tal
Eternidade que
Acaba e dura
Para sempre.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
ENTRE PARÊNTESES
De gatas e sorris
Candura posta entre parênteses
Para onde foste nessa hora quando te chamei
Puta
E investi desvairado como um cão?
A candura entre parênteses
De gatas
E sorriste.
Onde ficaste nessa hora?
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
VEM
Já somos nada
Quando a morte nos persegue.
Quando a morte nos persegue.
Esperamo-la implacável
Com o anúncio dos primeiros sinais.
Com o anúncio dos primeiros sinais.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
ESPERA
Noite fechada trouxe-me aqui ao alto portão de ferro Agarro-me às grades como um escravo da luz de breu Passo o portão e em dois passos estou na abadia que parecia distar léguas Um cheiro fétido a suor e a burel revelam um monge que me fita silencioso Trespassa-me uma ventania de claustro e o piso antes terroso é agora de pedra Não consigo articular uma palavra apenas sons abafados pelos sinos que me ensurdecem Os olhos de dentro do capuz indicam agora um rectângulo da laje Gravado está o meu nome o dia do meu nascimento e o desta noite.
Agosto de 2000
(com alterações)
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
ESPECTROS
Dos meus mortos não fica a memória senão em mim e que em mim morrerá
Justiça do tempo para os que viram a vida passar?
Alguns não deixaram rasto e toda a sua vida fez sentido.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
SUBLIME PORTA
Amolece-te a vontade
O vapor do banho turco.
O vapor do banho turco.
A memória de há pouco todo o querer
Já passou.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
ESCREVES...
Escreves escreves escreves escreves
Nada do que dizes rompe a superfície do papel.
Escreves escreves escreves escreves
Entre o panache a a autocomiseração
O artifício e a louvaminha
O lacrimejar e a traição
Escreves escreves escreves escreves
E tudo quanto escreves escreves escreves
Escreves tem o selo de validade para hoje
Promoção de último modelo
Gravata de saldo
Embuste de tablóide
Passatempo de televisão.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
POESIA PUTA
A poesia puta pede favor
Enfeita-se faz efeito quer impressionar.
É da barganha a poesia puta
Joga por influência
Rasteja por atenção.
«Vejam como é a puta
Que pariu esta poesia puta»
Gostaria ela de não dizer
Mas diz a poesia vendida.
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
EM BAGDADE, TODAS AS MANHÃS
As famílias já não precisam de despedir-se dos pais todas as manhãs
As famílias deixaram de ter pais todas as manhãs
As famílias perderam-se das famílias todas as manhãs de bagdade.
20-III-2007
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
PARIS, 1927
O que há nos olhos dum auto-retrato?
A coragem de ser em Paris 1927.
Estes olhos aguardavam de almada os olhos
O corpo o espírito.
Não sei de sarah sem almada
A não ser a suspeita levantada pelo
O que se ganhou?
O que se perdeu?
Sarah Affonso, Auto-Retrato, 1927
Col. particular
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«a paleta e o mundo»,
Almada Negreiros,
Sarah Affonso
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
E
E de elegante
E de elaborado
E de espasmódico de efluente de ejaculatório de electrizante e de electromagneto de entusiamante e de espectaculoso
E de eia!
E de edificante de egrégio de emérito de engrandecido.
E de egipciano e de eleusínico
E do espanto.
E de enobrecido de efes-e-erres de elanguescente de envolvente e
[estiloso
E de escol
E de esmerilhado e também de elemental de escandido e de escorrente.
E de etnológico de ebanítico, de eldorado
E de escarlate de ele e de ella
E de ecuménico
E de espalhado
E de estuário.
E de edénico de espiritual e de espiritoso de enigmático de evanescente.
E de eficaz de estremecido e de excelente.
E de «Duke»
E de Ellington.
22-XI-2006
Ellington, «La Plus Belle Africaine»
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